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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Debruçada na janela

[Imagens: do Arquivo Pessoal de Shimada Coelho. Interação e harmonia com a Natureza e a Vida captada através da lente de um celular]


Acordei com o som ensurdecedor das turbinas de um avião que parecia estar caindo sobre a casa. Em um salto, corri em direção a janela e a escancarei. O avião não caia, apenas passava mais baixo do que de costume. Uma tremenda falta de respeito que as empresas aéreas não se preocupam em resolver. 

Ouvi o canto de passarinhos mas, não sabia de que direção vinha. O ar estava agradável e o vento frio mas suave. Uma sensação maravilhosa me tomou, longe de se assemelhar a um cenário catastrófico de queda de avião.


Minhas mãos passearam por toda a superfície da moldura da janela. Agradeci a Deus por esta ser a única janela por onde meus olhos viajam.  Hoje em dia, quando se fala em janela se lembra de computador e internet. De ambos me cansei embora escrever no computador é bem mais prático do que escrever em papel.

Redes sociais nem pensar. A vida alheia deixou de ser interessante. As pessoas estão menos interessantes. O que elas fazem ou deixam de fazer, idem. 'Curtir' ou deixar de 'curtir' os grandes feitos cotidianos compartilhados em redes sociais são um tipo de apoio ou rejeição a ilusão de quem cada vez mais se afunda na própria ilusão: ilusão de que se é ouvido, ilusão de que se tem opinião ou convicção formada, ilusão de que se é interessante a ponto de mostrar ao mundo algum momento do próprio dia, ilusão de que tem a vida exatamente igual ao que a criatividade e a fantasia vai construindo em uma realidade paralela.


A Vida deu-me a graça de permitir que eu morasse exatamente na primeira casa que considerei a mais linda que já vi. Na rua mais tranquila, larga e pacata do bairro. Onde vizinhos não se sentam na calçada, crianças brincam apenas nas férias ou finais de semana e os únicos cães que vagam são os que são abandonados por aqui. Do portão pra dentro estou também em outra dimensão mas, longe de ser fruto da minha imaginação fértil. Tudo aqui é bem real: o casal de papagaios procurando grandes cascas que guardam sementes, os periquitos que toda manhã gritam em bando, as árvores que a seu tempo vão derrubando folhas secas ou flores ou frutos. Acima de mim apenas o céu por onde tantas nuvens desfilam. O horizonte é o mesmo há anos com as mesmas casas que às vezes mudam de cor. Aqui não há medo, não há brigas, nem palavrões, nem desrespeito, nem disputas, nem guerras, nem quem queira parecer melhor que o outro. Quando abro minha janela todo santo dia, a visão que tenho é de Paraíso.

Vez ou outra faço uma caminhada até a avenida onde está o centro comercial cada vez mais movimentado. Pessoas são mais interessantes quando passam por nós pelas calçadas, com seus olhares perdidos e seus passos inseguros. É bom ver com os próprios olhos como cada um neste mundo vive. É diferente de quando elas mesmas pintam um modo de vida que não possuem. Narrar a própria realidade é diferente de narrar o que desejamos que os outros vejam em nós. Fazer auto propaganda da própria vida é, bem lá no fundo, um modo de se auto afirmar: minha vida é assim maravilhosa graças a eu ser uma pessoa maravilhosa. As pessoas querem ser muito interessantes pra todos. Mas há um grande abismo que separa ter e ser...

Há dias que me sobra tempo demais. Nem passa por minha cabeça ir até a rede social. Me aprofundo cada vez mais nos meus pensamentos, chegando cada vez mais a conclusão de que quanto menos agitação na vida, melhor vida se tem. Meu modo de vida simples e sossegado, sem nada de interessante para compartilhar ou que sirva para uma auto propaganda é a mais feliz que eu poderia desejar. Porque de tão pouco posso tirar - e mais importante, sentir - tanta alegria e grandiosidade que de outro modo não teria. Feliz é quem tem pouco ou quase nada é ainda assim se sente repleto.

Vivi por muito tempo pontual em redes sociais, acreditando mesmo que ali eu estava semeando alguma semente...  Nem me dava conta de que todo tempo ali era um transe que me absorvia sem me dar conta do tempo passando. Antes não havia tempo ou ele passava rápido demais. Agora ele custa a passar.

Semente mesmo estou semeando mantendo meus pés firmes no chão. Consciente do que quero, do que não quero, do que sinto e do que quero sentir, do que tenho e do que me falta. Uma maravilha que é ser eu mesma!

Saber quantas pessoas me mandaram uma mensagem hoje? Não vai dar pra verificar: preciso pintar eu mesma a fachada da casa. Saber sobre o que as pessoas estão falando hoje? Hoje fui pegar os cachos secos da Palmeira para criar uma árvore de Natal externa. Quantas pessoas será que me curtiram hoje? Agora tenho que ouvir as tantas histórias que meu filho tem pra contar! Amanhã vou logar meu perfil? Amanhã vou ao oculista, depois de amanhã comprarei tinta, depois de depois de amanhã talvez irei ao cabeleireiro. Quem sabe quando tiver um tempo livre? Quando estiver de bobeira escreverei cartas ou ficarei por horas observando os cães brincando pelo quintal como se fossem filhotes.

Não é preciso mais expressar minha convicção e ver alguém a contrariando, pregando pra mim o quanto estou errada e qual o modo certo de pensar. E quem faz isso nem tem convicção de nada - inclusive de si mesmo - mas, fica como os cães debaixo da mesa esperando as migalhas para fingir ter alimento. Fingem ter convicção na opinião formada temporariamente em cima da contradição que faz da convicção alheia.

Não é preciso dizer mais nada em um mundo onde cada vez mais as pessoas desaprendem a ouvir e só querem falar como se fossem o centro do mundo. Não é preciso dizer mais nada em um mundo cheio de gente que acredita que sabe o que diz, pensa ou faz.

Não é preciso mais ter convicção, ou lado, ou posição, ou opinião. Tudo está certo, tudo está errado, o que serve pra mim não serve pra todo mundo, o que eu penso é so meu e o que os outros pensam é direito nato.

Não é preciso ser amigo de ninguém: amigo mesmo está nas horas mais difíceis com a mão no nosso ombro. Nem é preciso dar notícias: laços reais podem transmitir dados há quilômetros de distancia. A linguagem é telepática.

Ontem fui lá fora e senti a chuva caindo sobre mim... Hoje de manhã senti dor de cabeça com a claridade do dia apesar das tantas nuvens. Ontem de tarde após uma tempestade pude observar a chuva se afastando e estacionado sobre os tantos prédios da Paulista. Daqui a pouco irei varrer mais uma vez o quintal coberto de cerejas derrubadas pelo vento e pelos passarinhos glutões. Se continuar assim, poderei ver o momento exato que a minha Orquídea preferida irá abrir revelando suas imensas pétalas brancas.

O interessante da minha vida não é o que posso contar, é o que se pode ver. Mas espero mesmo que ninguém veja por estar ocupado demais em contemplar a própria vida.

Ser interessante mesmo é ser o que se é vivendo do jeito que se quer. Sem prisões, sem obrigações desnecessárias, sem se importar com o que os outros pensam e sem se interessar em atender as expectativas de ninguém! 

A Vida chegou em mim e disse:

- Dê-me satisfação do que tem feito de mim! 

A Vida tem dado a cada um o que lhe é devido, embora nunca estejam satisfeitos rejeitando  o que oferece para adquirirem aquilo que consideram ser melhor...

Ser feliz possuindo tudo o que quer e vendo tudo acontecendo exatamente como deseja é duvidoso. Seja feliz igualmente sem nada disso! O que restar quando não houver mais nada será Felicidade...


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