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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

José Saramago, Ensaio sobre a cegueira

"... Se eu voltar a ter olhos,
olharei verdadeiramente os olhos dos outros,
como se estivesse a ver- lhes a alma
A alma?- perguntou o velho da venda preta
Ou o espírito,
o nome pouco importa
Foi então que,surpreendentemente,
se tivermos em conta que se tratade pessoa que
não passou por estudos adiantados,
a rapariga dos óculos escuros disse,
Dentro de nós há uma coisa que não tem nome,
essa coisa é o que somos."
José Saramago, Ensaio sobre a cegueira

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Declaração Rosacruz dos Deveres do Homem


Declaração Rosacruz dos Deveres do Homem

PRÓLOGO

Desde que os homens tomaram consciência da necessidade de viverem em sociedades organizadas eles criaram diversas formas de governo para assegurarem o seu funcionamento. Hoje parece que é através da democracia que se expressam melhor os interesses e as aspirações dos indivíduos em particular e dos povos em geral. Com efeito, embora esse sistema seja imperfeito e tenha muitas fragilidades, são atualmente as sociedades democráticas que melhor garantem os direitos do Homem tais como estão definidos na Declaração Universal.

Mas, se o respeito aos direitos de cada um é o fundamento de toda democracia, qualquer democracia que não estimule os referidos direitos tem em si mesma os germes da decadência e propicia a emergência de uma ditadura. Como a História tem mostrado, o bom funcionamento de uma sociedade depende de um equilíbrio apropriado entre os direitos e os deveres de todo indivíduo. Quando esse equilíbrio chega a ser rompido, seja aliás ao nível de governantes ou de governados, os mais extremos totalitarismos se apossam da situação e mergulham as nações em pauta no caos e na barbárie.

No alvorecer do século XXI, constatamos que em muitos países onde a democracia se tornou uma instituição de longa data os direitos dos cidadãos têm primazia sobre os deveres que lhes incumbem como seres humanos, de modo que o equilíbrio é, se não rompido entre estes e aqueles, pelo menos muito ameaçado. Receando que esse desequilíbrio se amplie e acabe nesses mesmos países numa regressão da condição humana, apresentamos esta Declaração dos Deveres do Homem a todos aqueles que compartilham da nossa inquietação:


DECLARAÇÃO

Artigo 1: Todo indivíduo tem o dever de respeitar sem preconceito os direitos do Homem, tais como estão definidos na Declaração Universal.

Artigo 2: Todo indivíduo tem o dever de respeitar a si mesmo e não aviltar seu corpo ou sua consciência por comportamentos ou práticas que firam sua dignidade ou sua integridade.

Artigo 3: Todo indivíduo tem o dever de respeitar os outros, sem distinção de raça, sexo, religião, classe social,comunidade ou qualquer outro elemento aparentemente distintivo.

Artigo 4: Todo indivíduo tem o dever de respeitar as leis do país onde vive, ficando entendido que essas leis devem ter por fundamento o respeito aos seus mais legítimos direitos.

Artigo 5: Todo indivíduo tem o dever de respeitar as crenças religiosas e as opiniões políticas dos outros, desde que elas não prejudiquem nem a pessoa humana nem a sociedade.‘

Artigo 6: Todo indivíduo tem o dever de ser benévolo em pensamento, palavra e ação, a fim de ser um agente da paz social e um exemplo para os demais.

Artigo 7: Todo indivíduo com idade, estado ou condição de trabalhar, tem o dever de fazê-lo, seja para suprir suas necessidades ou as de sua família, para ser útil à sociedade, para se desenvolver no aspecto pessoal ou simplesmente para não se perder na ociosidade.

Artigo 8: Todo indivíduo que tenha a seu encargo a educação de uma criança tem o dever de nela inculcar a coragem, atolerância, a não-violência, a generosidade e, de modo geral, as virtudes que dela façam um adulto respeitável e responsável.

Artigo 9 : Todo indivíduo tem o dever de prestar assistência a quem quer que esteja em perigo, seja intervindo diretamente,seja fazendo o que for necessário para que as pessoas habilitadas a intervir o façam.

Artigo 10: Todo indivíduo tem o dever de considerar a humanidade inteira como sua família e de se comportar em toda circunstância e em todo lugar como um cidadão do mundo, fazendo assim do humanismo a base de seu comportamento e de sua filosofia.

Artigo 11: Todo indivíduo tem o dever de respeitar os bens alheios, sejam eles privados ou públicos, individuais ou coletivos.

Artigo 12: Todo indivíduo tem o dever de respeitar a vida humana e considerá-la como o mais precioso bem que existe neste mundo

.Artigo 13: Todo indivíduo tem o dever de respeitar a natureza e preservá-la, a fim de que as gerações presentes e futuras possam dela se beneficiar em todos os planos e nela vejam um patrimônio universal.

Artigo 14: Todo indivíduo tem o dever de respeitar os animais e considerá-los verdadeiramente como seres, não apenas vivos, mas também conscientes e sensíveis.



EPÍLOGO

Se todos os indivíduos cumprissem estes deveres fundamentais, haveria poucos direitos a reivindicar, pois cada qual sebeneficiaria do respeito que lhe é devido e poderia viver feliz na sociedade. Por isto toda democracia não deve se limitara promover um “estado de direitos”, caso em que o equilíbrio evocado no Prólogo não pode ser mantido. É imperativotambém que ela preconize um “estado de deveres”, a fim de que todo cidadão expresse em seu comportamento aquiloque o Homem tem de melhor em si. Só apoiando-se nesses dois pilares é que a civilização poderá assumir plenamenteseu status de humanidade.

21 de setembro de 2005 - Ano R+C 3359

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

A Carta do Cacique Seattle, em 1855‏

Yeha Noha (Carta do Cacique Seattle) O clipe desta música da Sacred Spirit e a carta que o Cacique Seattle enviou ao presidente dos EUA em 1855

Em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, enviou esta carta ao presidente dos Estados Unidos (Francis Pierce), depois de o Governo haver dado a entender que pretendia comprar o território ocupado por aqueles índios. Faz mais de um século e meio. Mas o desabafo do cacique tem uma incrível atualidade. A carta:

"O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra.

O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, elas não empalidecem.Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.

Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.

Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.

Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são muitos.

Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência.

Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos.

Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse.

E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos.

Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum."

PARA REFLETIRMOS E REVERMOS NOSSOS CONCEITOS E VALORES!

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

OS MANDAMENTOS CHEROKEE


Trate a Terra e tudo o que nela habita com respeito
(Treat The Earth And All That Dwells thereon With Respect)
Mantenha-se próximo ao Grande Espírito
(Remain Close To The Great Spirit)
Mostre grande respeito por todos os seres
(Show Great Respect For all Beings)
Trabalhem juntos pelo benefício da Raça Humana
(Work Together For The Benefit Of All Mankind)
Faça o que Você sabe que é certo
(Do What You Know Is Right)
Cuide do bem estar da mente e do corpo
(Look After The Well-being Of Mind And Body)
Dedique uma parte de seus esforços para o Bem Maior
(Dedicate A Share Of Your Efforts To The Greater Good)
Seja sempre verdadeiro e honesto
(Be Truthful And Honest At All Times)
Assuma total responsabilidade por seus atos.
(Take Full Responsibility For Your Actions)
http://www.netfenix.com.br/adonai/pagina.asp?p=69&i=0

Reflexões sobre a Liberdade de Opinião

Marcelo Lamy
“Aquele que deixa o mundo ou sua própria porção dele moldar-lhe o plano de vida não tem necessidade de qualquer outra faculdade senão a de imitação” (Stuart Mill)


Desde o ensaio “Da Liberdade” – maior legado do escritor político inglês Stuart Mill, publicado em 1859 – indaga-se quais são os limites legítimos de ingerência de qualquer autoridade coletiva em relação à opinião do indivíduo, pois se estes não são refreados, certamente perece a verdadeira liberdade de pensamento e de opinião:
“Não é suficiente, portanto, a proteção contra a tirania do magistrado; necessária também a proteção contra a tirania da opinião e do sentimento predominantes, contra a tendência da sociedade para impor, por meios outros que não penalidades civis, as próprias idéias e práticas, como regras de conduta para aqueles que discordam delas; agrilhoar o desenvolvimento e, se possível, impedir a formação de qualquer individualidade não em harmonia com os seus processos, compelindo todos os caracteres a conformar-se com o modelo adotado. Existe um limite à interferência legítima da opinião coletiva em relação à independência individual; determinar esse limite e mantê-lo contra usurpações é tão indispensável à boa condição dos negócios humanos como a proteção contra o despotismo político”. (Mill: 07).
A defesa da liberdade de opinião é o contraponto às pressões da opinião pública. Não podem haver ingerências sociais se um ato não atinge outro membro do grupo (princípio do dano). Os limites da ingerência são, por sua vez, a outra face dos limites da legítima ação livre: o ferir aos outros membros da sociedade.
De outra forma, como apontava Stuart Mill: o único motivo que justifica a interferência da lei ou da opinião na esfera individual é a demonstração de que tal conduta concreta (comissiva ou omissiva) causará dano a outrem ou afetará interesse legítimo de outrem. Na parte que diz respeito a si mesmo, a independência de atuação deve ser absoluta.
Tirania da opinião
Há um sentimento curioso em cada um de nós de considerar nossa regra de conduta a atitude correta para todos os demais. Ninguém reconhece naturalmente que o próprio padrão de julgamento é aquilo de que gosta, sua preferência e algumas vezes a razão. Há uma disposição nos homens, sejam governantes, sejam concidadãos, de impor as próprias opiniões e inclinações como regra de conduta para os demais.
Em certos universos acadêmicos isto é ainda mais curioso, esquece-se que a proposta racionalista é a de que a razão prepondere acima das pessoas. Por isso, Karl Popper aponta com tamanha argúcia que a academia se desvirtua quando o objetivo torna-se convencer ao invés de esclarecer: “infelizmente é extremamente comum entre os intelectuais querer impressionar os outros (...) não ensinar mas cativar”.
Além disso, esquecemo-nos de que muito do que nos foi legado culturalmente é de fato um construto dogmatizado, pois aquilo que foi conquistado por algumas gerações é transmitido às próximas como uma verdade absoluta, sem questionamentos. Assim já nos alertava Aldous Huxley em seu brilhante ensaio “Sobre a Democracia”.
São fatos como esses que tornaram a intolerância algo tão natural ao homem, ao ponto de podermos afirmar que cada um de nós tem o seu reduto de intolerância.
E o pior, a intolerância refreia aos pensadores desprovidos de coragem para enfrentá-las. De quantos nobres pensamentos a humanidade se privou por isso!
As penas da lei ou da opinião advém das preferências ou aversões da sociedade do momento. E a luta do homem no poder tem sido a de modificar as preferências e aversões e raramente a de esquadrinhar quais de fato deveriam tornar-se as leis para o homem.
Realidade mais chocante ainda é percebermos com Rousseau que essa detestável tirania da opinião alheia foi criada por nós mesmos: pois o homem sociável, sempre fora de si, vive da opinião dos outros, do juízo deles vem o sentimento de sua própria existência (Rousseau: 242). Ou ainda, como aponta Popper, que a procura de dirigentes e profetas produz a oferta de intelectuais-profetas, de intelectuais-dirigentes e jamais de verdadeiros racionalistas que despertassem e desafiassem os outros a formarem opiniões livres (Popper: 118).
E se não percebemos isso, cuidado: Não deseja algo (a liberdade) quem não imagina ser deficiente naquilo que não pensa lhe ser preciso (parafraseando Platão no “Banquete”).
A Necessidade da Discussão
O silenciamento da expressão de uma opinião é um mal, pois não há liberdade de opinião sem que a mesma seja expressada e aceita na sua construção. Não é liberdade de opinião o mero livre pensamento sem o respectivo extravasamento da mesma no seio social.
Desta forma, recusar-se a ouvir uma opinião porque está-se certo de que é falsa importa, além de supor a infalibilidade de sua certeza (inocência pueril a da confiança completa nas próprias opiniões, ou nas opiniões da parte do mundo com a qual entramos em contato!), é verdadeiro e atualíssimo obstáculo à liberdade de opinião.
Porque julgamos inquestionável algo (infalível), achamos justo restringir a discussão ou mesmo recusamos a prestar ouvidos a opiniões diversas, até porque nossa persuasão é tamanha que achamos imoral ou perniciosa a idéia diversa. Atitudes assim condenaram Sócrates por imoralidade (corruptor da mocidade); condenaram Cristo por blasfêmia.
Incrível é que não se abale a confiança de alguém pela demonstração de que em outras regiões ou em outros tempos pensava-se o contrário, julgavam-se falsas ou até absurdas as opiniões que se defendem hoje! Incrível que as pessoas não cogitem que suas opiniões provavelmente serão rejeitadas por épocas futuras!
Não podemos ter certeza se estamos diante da verdade se estivermos perante superstições ou preconceitos, crenças independentes de fundamentação, argumentação não submetida à prova em contrário, pelo menos às objeções comuns: “Aquele que só conhece seu próprio lado da questão, pouco sabe dela” (Mill: 42).
Colocar-se na posição mental daqueles que pensam diferentemente, mesmo que estes não existam, é o que nos habilita a conhecer a verdade de nossa opinião. Ademais, os fundamentos da opinião é que preenchem a significação da opinião em sua plenitude: “O hábito firme de corrigir e completar a própria opinião, cotejando-a com a de outras pessoas, longe de causar dúvida e hesitação ao pô-la em prática, é o único fundamento estável para que se tenha confiança nela” (Mill: 25).
Vazia e fraca, sem vitalidade é a opinião que esqueceu dos seus fundamentos. Nesse caso, o próprio assentimento torna-se apático. O poder desta crença apática restringe-se a não permitir a entrada de qualquer convicção nova, mas nada faz a favor do espírito ou do coração.
Por outro lado, há que se ter em mente que no conflito de opiniões, em geral, cada lado possui parcela de verdade e somente a discussão serena pode extrair o que de verdade há em cada uma delas: “não é no partidário apaixonado e sim no espectador mais calmo e desinteressado que essa colisão de opiniões exerce efeito salutar” (Mill: 59), pois não suprime parte da verdade pela simples paixão.
Para assim agir, Stuart Mill aponta algumas diretrizes (59-60):
a) se uma opinião força ao silêncio, pode ser verdadeira;
b) a opinião pode conter apenas parte da verdade, assim a colisão de opiniões permite-nos descobrir o resto da verdade;
c) mesmo que a opinião contenha a verdade total, é necessário discuti-la para que não seja admitida como preconceito, com pouca compreensão ou sentimento de seus fundamentos racionais;
d) a significação correrá o risco de perder-se ou debilitar-se, ficando privada do efeito indispensável sobre o caráter e a conduta, se não for discutida.
Desenvolvimento da individualidade
Quem faz por costume não escolhe, não raciocina, não julga, não decide.
Desejável ao homem o exercitar o entendimento, os desejos equilibrados. Não a simples imitação dos comuns (do estabelecido socialmente) ou dos superiores (“dirigentes” e “profetas”), mas o guiar-se pelo que mais convém a si mesmo.
O império da lei e do costume, sem mais, aniquila a individualidade. Assim, a peculiaridade do gosto, a excentricidade de conduta passa a evitar tal como crime: “a tirania da opinião é tal que torna a excentricidade reprovável” (Mill: 76).
“Gênios, é verdade, são e provavelmente sempre serão pequena minoria; contudo, para tê-los, é necessário conservar o solo no qual se desenvolvem. Os gênios só podem respirar livremente em atmosfera de liberdade”. (Mill: 73).
O gênio é individualista, desenvolve suas faculdades individuais contra a corrente e por isso nos beneficia de suas descobertas. Necessitamos da originalidade, os indivíduos não podem perder-se na multidão, na massa, na mediocridade coletiva. A massa pensa o que lhes dita suas autoridades, sem premeditação. E o homem-massa (como aponta Ortega y Gasset) apesar de não refletir, insiste em impor sua opinião (para ele, inquestionável).
As pessoas são diferentes e por isso precisam de condições diversas (modos de vida diferentes) para o desenvolvimento espiritual, nem por isso podem ser vistas como lunáticas.
O despotismo do costume é obstáculo ao progresso humano. A única fonte infalível e permanente do progresso é a liberdade, o desenvolvimento da individualidade que emancipa o homem. E, infelizmente, os homens rapidamente tornam-se incapazes de conceber a diversidade quando por algum tempo se desacostumam dela.
Parece-nos equivocado enaltecer a liberdade, no entanto, a ponto de dizer aos demais que vão ficar todos bem quando forem livres. Não é a liberdade simplesmente que traz o sucesso da vida, este advém também da competência, da diligência, de virtudes e da sorte (referimo-nos à virtu e à fortuna apontada por Maquiavel).
Apenas podemos afirmar que a existência da liberdade faz com que nossas aptidões pessoais tenham um pouco mais de influência no nosso bem-estar, permite que sejamos responsáveis por nós próprios, única forma digna e meritosa de desenvolvimento apontada há séculos por Demócrito (Popper: 126).
Limites de qualquer autoridade sobre a opinião individual
A sociedade tem jurisdição sobre qualquer parte da conduta de um indivíduo que afete prejudicialmente certos interesses (considerados como direitos) de outrem.
Não se despreze, no entanto, a maneira como cada um conduz sua vida própria, enquanto não afete ao outro. Preserve-se ao homem do mal de permitir outrem de constrangê-lo a fazer o que este julgue ser o bem dele.
O próprio bem cabe à educação cultivar, sem castigos ou punições sociais, com orientação, pois o homem livre sofrerá as consequências espontâneas de suas faltas: “Conselho, instrução, persuasão e abstenção de parte de terceiros, se assim se julgar necessário, em benefício próprio, são as únicas medidas por meio das quais a sociedade pode justificadamente exprimir desagravo ou desaprovação à conduta de outrem” (Mill: 106).
A reprovação moral só deve aparecer quando houver quebra do dever para com o próximo: “Sempre que houver dano definitivo, ou risco definido de dano, seja para o indivíduo, seja para o público, o caso deixa a província da liberdade para vir colocar-se na da moralidade e da lei” (Mill: 93).
Referências
MILL, John Stuart. Da Liberdade. Trad. Jacy Monteiro. São Paulo: Ibrasa, 1963.
POPPER, Karl R. A vida é aprendizagem. Trad. Paula Taipas. Lisboa: Edições 70, 1999.
ROSSEUAU, J. J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade dos homens. Trad. Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

Os 9 Carismas ou Dons Espirituais


Os 9 dons espirituais


Videntes, profetas, magos, bruxas, bruxos:
todos são pessoas com a capacidade de dialogar com o mundo espiritual
e conseguir assim prodígios neste mundo.

O assunto é vasto e contudo, que dizem as sagradas escrituras sobre os dons espirituais que permitem
a algumas pessoas operar a nível espiritual de forma tão diversa e intrigante?

Eis que assim se revelam os dons espirituais descritos de acordo com a Bíblia.

Nas sagradas escrituras, podemos observar que existem 9 tipos de dons espirituais.
Assim está escrito:

Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para utilidade de todos.
A um, o espírito dá a (….) sabedoria;
a outro a (…) ciência segundo o mesmo espírito(…);
a outro (…) a fé;
a outro (….) o poder das curas (…);
a outro, o poder de fazer milagres ;
(…) a outro, a profecia (…);
a outro, o discernimento dos espíritos (…);
o outro o dom de falar línguas (…) ;
a outro ainda o dom de as interpretar (…)

1 Co 12, 7-10

Estes são por isso os 9 dons espirituais:

I
A sabedoria ( conforme Jb 29,12-13; Sl 119, 89-99; Es 7,9-10),
ou seja, o espírito da sabedoria, (Sb 7,7), aquele que concede o saber dos sábios
que permite conhecer as leis e verdades sobre o mundo espiritual, (Sb 7,7-8)
e que concede as maiores prosperidades(Sb 7,10-12).
II
O conhecimento sobre as ciências espirituais, ou o Dom da Ciência( conforme Nm 24,4; Bc 3,27;32;4,1)
ou seja, o conhecimento sobre as ciências ocultas e espirituais,
aquelas que permitem actuar sobre esta realidade a partir da realidade celestial e que se econtram reveladas nas escrituras
III
A fé ( conforme Hb 11,1 ; 8-9), que é o meio por via do qual se consegue ver aquilo que não se vê,
se consegue aceder ao mundo espiritual, se conseguem operar prodígios
IV
O poder das curas, que é o dom por via do qual os espíritos actuando sobre a matéria por via de uma pessoa,
conseguem operar sobre a enfermidade, eliminando-a ou aliviando-a
V
O poder dos milagres,(operação de milagres) ou o dom por via dos qual os espíritos operando neste mundo por via de uma pessoa,
conseguem realizar prodígios aparentemente inexplicáveis e logo, sobrenaturais
VI
O dom da profecia, ou o dom por via do qual os espíritos, actuando por meio de uma pessoa,
revelam aos mortais as formas como irão actuar neste mundo e por conseguinte,
aquilo que irá suceder futuramente em virtude da acção de pedidos que lhes foram direccionados,
ou de situações que se desencadearam e que são importantes ao mundo celeste
VII
O poder de discernimento dos espíritos, ou Discernimento
ou seja, o dom de sentir, ou ver e dialogar com os espíritos e o mundo espiritual
VIII
O dom de falar línguas espirituais ou Dom de Línguas estranhas( conforme 1 Co 2,13; 14,2), ou seja,
o dom de comunicar com os seres espirituais através da sua língua espiritual
IX
O dom de interpretar as linguagens do espírito ( Interpretação de Línguas )ou ( conforme 1 Co 2,13; 2 Co 12,4), ou seja,
o dom de ouvir e entender as linguagens espirituais que os seres celestes falam


A profecia, é na verdade, segundo as escrituras, o mais precioso dom do espírito.
Sobre a profecia, dizem as escrituras:

Aspirai aos dons do espírito, principalmente o da profecia

1 Co 14,1



A profecia é por isso o mais elevado dos dons espirituais, e dele se diz:



Aquele que profetiza fala aos homens: edifica, exorta, consola.

1 Co 14,3

Significa isto:

Aquele que faz profecia, fala aos homens as mensagens do espírito, e ao faze-lo:

I
Edifica: ou constrói caminhos que conduzem ao alivio do sofrimento de quem esta atormentado;
II
Exorta: ou instrui os que padecem de forma a que entrem pelos caminhos que ele construiu e que levam á cura do mal;
III
Consola: ou acolhe com compaixão aqueles que sofrem

E ao tudo isso fazer, o profeta cura sofrimentos e devolve á vida de quem sofre o caminho perdido, a felicidade.

a Maturidade


A maturidade não vem com o tempo nem com a idade. Não existe um intervalo entre o presente e o amadurecimento; esse intervalo não existe mesmo. A maturidade é aquele estado no qual cessou toda forma de escolha; só os imaturos escolhem e conhecem o conflito nascido da escolha. Na maturidade não existe uma direção qualquer, mas, sim, aquela que não vem da escolha. Qualquer espécie de conflito revela imaturidade.
Não existe o amadurecimento psicológico, a não ser o inevitável processo orgânico de crescimento. Maturidade é a compreensão que transcende todo e qualquer conflito. O conflito deve deve ser compreendido em sua inteireza, não apenas intelectualmente, mas no contato vivo e real com a sua essência. Esse contato emocional e direto com o conflito, a crise, deixa de ocorrer se nos limitarmos a aceitá-lo, intelectualmente, como necessário, ou a negá-lo de forma sentimental.
A aceitação ou a rejeição não alteram o fato e nem mesmo o raciocínio será capaz de provocar a crise necessária. Isso só vem com a compreensão do fato. Esta percepção não ocorre se houver condenação, justificativa ou identificação com o fato. Ela só se torna possível quando o cérebro cessa sua atividade, limitando-se a observar, abstendo-se do ato de classificar, julgar ou avaliar. Existirá, necessariamente, o conflito enquanto houver a ânsia de preenchimento, com sua inevitável série de frustrações; existirá o conflito enquanto existir a ambição, com seu velado e implacável espírito de competição; e a inveja faz parte desse interminável conflito, gerado pelo desejo de vir-a-ser, de obter ou de alcançar o bom êxito.
A compreensão independe do tempo; está sempre no presente, nunca no amanhã; é agora ou nunca; o que existe é o presente. O "ver" ( perceber ) é instantâneo; cessando no cérebro o conceito do ato de "ver" e compreender, ele é imediato. Esse "ver" é explosivo, isento de cálculo ou raciocínio. Na maioria das vezes, é o medo que impede a compreensão. O medo, com suas defesas e sua coragem, é a origem do conflito. O "ver" não apenas vem do cérebro, mas também o transcende.
A percepção do fato cria sua própria ação,completamente diferente da ação baseada na idéia ou no pensamento; a ação emanada da idéia ou do pensamento gera conflito; a ação visante a ajustar-se à idéia , ao modelo, gera conflito. No campo do pensamento, todo conflito é interminável.
( Diário de Krishnamurti - pág. 63 - Edit. Cultrix )

o Ser


O importante é o ser e não o vir-a-ser; um não é o oposto do outro; havendo o oposto ou a oposição, cessa o ser, haverá conflito. Ao findar o esforço para vir-a-ser surge a plenitude do ser, que não é estático; não se trata de aceitação ou de mera contestação; o vir-a-ser depende do tempo e do espaço. O esforço deve cessar; disso nasce o ser que transcende os limites da moral e da virtude social, e abala os alicerces da sociedade. Esta maneira de ser é a própria vida, não mero padrão social. Lá onde existe vida não existe perfeição; a perfeição é uma idéia, uma palavra; o próprio ato de viver e de existir transcende toda forma de pensamento e surge do aniquilamento da palavra, do modelo, do padrão.
( Diário de Krishnamurti - pág. 62 - Edit. Cultrix )

Religião


Para descobrir o que é verdadeira religião, você precisa afastar tudo o que estiver no caminho dessa descoberta. Se você tem muitas janelas coloridas ou sujas e quer ver a clara luz do Sol, precisa limpar ou abrir as janelas, ou sair de casa. Da mesma forma, para descobrir o que é a verdadeira religião, você deve primeiro ver o que a verdadeira religião não é, e pôr isso à parte. Então poderá descobrir - porque, então , haverá percepção direta. Vejamos pois o que não é religião.
Cumprir rituais - isso é religião ? Você repete muitas e muitas vezes um certo ritual, um certo mantram em frente de um altar ou de um ídolo. Isso pode lhe dar uma sensação de prazer, uma sensação de satisfação; mas será isso religião ? Vestir uma roupa sagrada, intitular-se indú, budista ou cristão, aceitar determinadas tradições, dogmas, crenças - tem tudo isso algo a ver com religião ?
Obviamente não . Por conseguinte, a religião deve ser algo que só se poderá encontrar quando a mente tenha entendido e descartado isso tudo.
Religião, no verdadeiro sentido da palavra, não trás separação. Mas, que acontece quando você é muçulmano e eu cristão, ou quando eu creio numa coisa e você nela não crê ? Nossas crenças nos separam; portanto, nossas crenças nada tem a ver com religião.
O fato de crermos ou não em Deus tem pouca significação; porque aquilo em que cremos ou em que deixamos de crer é determinado por nosso condicionamento. A sociedade em torno de nós, a cultura em que somos criados, imprime em nossas mentes certas crenças, certos medos e superstições a que chamamos religião; mas que nada tem a ver com religião. O fato de você crer de um modo e eu de outro depende, em grande parte, de onde tenhamos nascido, se nascemos na Inglaterra, na Índia ou na América. Assim sendo, crença não é religião, é apenas o resultado de um condicionamento.
Há além disso, a busca da salvação pessoal. Quero estar seguro; quero atingir o nirvana, ou alcançar o céu; preciso encontrar um lugar junto de Jesus, junto de Buda ou à direita de algum deus particular. Sua crença não me dá satisfação profunda, conforto; por isso tenho a minha própria crença. E será isso religião ?
Sem dúvida, nossas mentes precisam estar livres de todas essas coisas para podermos descobrir o que é a verdadeira religião.
E será religião simplesmente uma questão de fazer o bem, de servir ou ajudar os outros ? Ou será mais que isso ? O que não quer dizer que não devamos ser generosos ou bons. Mas será só isso ? Religião não será algo muito maior, muito mais puro, vasto, expansivo do que qualquer coisa concebida pela mente ?
Assim, para descobrir o que seja a verdadeira religião, você precisa investigar profundamente todas essas coisas e libertar-se do medo. É como sair de uma casa escura para a claridade do Sol. Então, você não perguntará o que é a verdadeira religião; você mesmo saberá. Haverá experiência direta daquilo que é verdadeiro
Krishnamurti
( O Verdadeiro Objetivo Da Vida - págs. 98 e 99 - Edit. Cultrix )

Conhecimento


Os seres humanos acumulam e adoram o conhecimento, não só o conhecimento científico mas também o chamado conhecimento espiritual. Eles acham que o conhecimento é muito importante na vida - o conhecimento do que aconteceu e do que vai acontecer. Todo esse processo de acumular informação, de adoração de conhecimento - não nascerá ele do medo ? Tememos que sem conhecimento fiquemos perdidos, não saibamos nos conduzir.
Assim, lendo o que os sábios disseram, conhecendo as crenças e experiências de outras pessoas e valendo-nos também da nossa própria experiência, construímos gradativamente uma base de conhecimento que se torna tradição; e nos refugiamos atrás dessa tradição.
Achamos que esse conhecimento ou tradição é essencial e que sem isso nos veríamos perdidos, não saberíamos o que fazer.
Ora, quando falamos de conhecimento, o que queremos dizer ? O que é que conhecemos ? Que é que você realmente conhece, quando passa a considerar o conhecimento que acumulou ? Em certo nível, na ciência, na engenharia, etc..., o conhecimento é importante; mas, fora isso, que é que conhecemos ?
Vocês já consideraram esse processo de acumulação de conhecimento ? Por que vocês estudam, por que prestam exames ? O conhecimento é necessário em certo nível, não é ? Sem o conhecimento de matemática e de outras matérias, não se poderia ser engenheiro ou cientista. O relacionamento social baseia-se nesse conhecimento, e nós não poderíamos ganhar a vida sem ele. Mas, além desse tipo de conhecimento, o que é que sabemos ? Além disso, qual é a natureza do conhecimento ?
Que queremos dizer quando falamos que o conhecimento é necessário para encontrar a Deus, ou que o conhecimento é necessário para nos entendermos a nós mesmos, ou que o conhecimento é essencial para encontrarmos um caminho em meio às tormentas da vida ? Aqui damos ao conhecimento o significado de experiência; e o que é experiência ? O que é que conhecemos através da experiência ? Não será esse conhecimento usado pelo ego, pelo 'eu', para fortalecer-se ?
Digamos, por exemplo, que eu tenha alcançado certa posição social. Essa experiência, com sua sensação de sucesso, de prestígio, de poder, me dá uma certa sensação de segurança, de conforto. Assim, o conhecimento do meu sucesso, o conhecimento de que sou alguém, de que tenho certa posição, certo poder, fortalece meu 'eu', meu ego, não é verdade ?
Já perceberam como o conhecimento dá a seus pais e a seus professores a atitude: 'Eu tenho mais experiência do que você; eu sei e você não sabe ? ' Assim o conhecimento , que é mera informação, passa aos poucos a ser o sustento da vaidade, o alimento do ego, do 'eu'. Pois o ego não pode existir sem esta ou alguma outra forma de depêndencia parasítica.
O cientista usa o conhecimento para alimentar sua vaidade, para sentir que é alguém. Professores, pais, gurus - todos querem ser alguém neste mundo, e então usam o conhecimento como um meio para alcançar esse fim, para satisfazer esse desejo; e quando vocês vão além das palavras deles, que é que eles realmente sabem ? Só sabem o que está nos livros, ou aquilo que experimentaram; e a experiência depende de seu condicionamento. Como eles, a maioria dentre nós está cheia de palavras, com informação que chamamos conhecimento, e sem isso nos vemos perdidos; portanto, sempre há medo por trás da cortina de palavras, de informação.
Onde há medo, não há amor; e o conhecimento sem amor nos destrói. Eis o que está acontecendo no mundo atualmente. Por exemplo, temos agora conhecimento suficiente para alimentar os seres humanos de todo o mundo; sabemos como alimentar, vestir e abrigar a humanidade, mas não o estamos fazendo, porque estamos divididos em grupos nacionalistas, cada qual com seus objetivos egoístas.
Se realmente tivéssemos o desejo de acabar com as guerras, poderíamos fazê-lo; mas não temos esse desejo, e pela mesma razão. Portanto, o conhecimento sem amor torna-se um meio de destruição. Enquanto não entendermos isto, passar meramente nos exames e alcançar posições de prestígio e de poder, inevitavelmente levará à deterioração, à corrupção, à lenta atrofia da dignidade humana.
Obviamente, é essencial possuir certo nível de conhecimento, mas é ainda mais importante ver como o conhecimento é usado para servir a propósitos egoístas.
Observem-se a si mesmos e vejam como a experiência é empregada pela mente como meio de auto-expansão, como meio de obter poder e prestígio. Observem os adultos e verão como eles anseiam por posição e se apegam ao sucesso. Eles querem construir um ninho de segurança para si mesmos, querem poder, prestígio, autoridade - e a maioria de nós, de várias formas, está atrás das mesmas coisas. Não queremos ser nós mesmos, seja lá o que formos; queremos ser 'alguém '. Há uma diferença, é claro, entre ser e querer ser. O desejo de ser ou de vir a ser é contínuo e é fortalecido através do conhecimento, que é usado para o engrandecimento próprio.
É importante que todos nós, à proporção que amadureçamos, examinemos esses problemas e os compreendamos, para não respeitarmos uma pessoa só porque ela tem um título ou uma posição elevada ou porque , presumivelmente, possui uma grande soma de conhecimentos. Na verdade, conhecemos muito pouco. Podemos ter tido muitos livros, mas pouquíssima gente tem alguma experiência direta seja do que for. É a experiência direta da realidade, de Deus, que é de vital importância; e, para isso, tem que haver amor.
Krishnamurti
( O Verdadeiro Objetivo Da Vida - págs. 92 a 94 - Edit. Cultrix )