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sábado, 4 de setembro de 2010

Diário da Exilada - A Mulher Desconhecida de Schrödinger


Eu me perco em meus sonhos tão lúcidos e reais, que quando acordada não sei se durmo, pois tão fantasiosa e fictícia me parece a realidade que a cada instante se modifica bruscamente como sonhos que emergem confusos e sem ordem e sentido que ao abrir os olhos, não sabemos como contar.

Vez ou outra eu sinto que não faço parte deste mundo, tão estranha consigo ser e por me ver constantemente entre brechas difusas que ora enxergo, ora expresso, tornando-me viajante do tempo, no tempo, no espaço que sem espaço não possui tempo...

Eu ainda não conhecia o mal que caminhava livre pelo mundo quando descobri na gata que me olhava, uma lição estranha... Ela tão estranha quanto eu... Ela que me abandonava e após retornava como se possuísse asas aladas invisíveis... Ela queria ter seus filhotes na minha presença, como que insistindo que eu aprendesse algo que não podia ainda compreender... E arrumei-lhe um canto que ela mesma escolheu, e diante de seus apelos ali ao lado me deitei e observei tudo... Dias depois, olhava-me e miava novamente seu apelo para que mudasse seus filhos de lugar, e o fiz com seu consentimento, colocando-os numa caixa que ela mesma escolheu. Havia momentos que pensava estar a ver coisas, quando ela olhava-me demoradamente e esperava como que esperando que eu caísse em mim e a seguisse... Eu a seguia e ao nos aproximar da caixa, ela olhava-me como quem diz: '- Observa!'

Ela olhava a lateral da caixa, alta o suficiente para que seus filhos não saíssem, mas ela entrasse. Depois de tanto olhar, em um salto entrava dentro e começava a lamber seus filhinhos... E assim foi por muitos dias... Semanas até que certa vez eu percebi algo estranho: ao pular para dentro da caixa, ela nunca pisava em nenhum filhote sequer. Intriguei-me... Ela olhava sempre a lateral da caixa antes de saltar para dentro... E eu compreendi.

E depois disto, passei minha vida tentando saltar para dentro de caixas: corpos de seres, olhando antes de saltar... E eu bem sei a visão de uma mosca quando voa nos ares... E posso detalhar como uma mosca voa: o vento forte que passa não leva para longe o minúsculo corpo, e o bater de suas asas é mais forte que a força do vento que para nós é brisa... Tudo no mundo é uma vastidão gigante que ela nada enxerga...E foi assim que pude ouvir a canção das flores... E posso descrevê-la: o momento do canto é quando os polens discretamente se soltam...E descobri a sensação do passarinho que guarda seu ninho entre as folhas no galho mais alto: uma de suas unhas entra na fenda entre as cascas da árvore, mas não se prende... Ele olha pelo canto dos olhos acompanhando os sons que ouve... Pula e se volta para a direita, pula e se volta para esquerda, como se tivesse um radar, oculto e microscópico debaixo da delicada plumagem...

E foi quando descobri o felino que existe em mim... Meu espírito é de um Lince que olha de longe, desconfiado, selvagem e arisco... E descobri como há entre minhas pernas um abismo que as mantém afastadas, pois um de meus pés está aqui... Meu outro pé eu não sei onde está... E assim, nunca sei quando sonho e quando estou de fato acordada... Auto-sugestão? Imaginação fértil? Loucura?

Pois eu vou e volto numa velocidade absurda, que já não sei naquele momento onde realmente estou... E há momentos que não sei se de fato existo... Se eu sou o que penso ser, ou sou o ar pensando ser gente... Ou sou o vento, pensando ser um sonho alado... Ou se sou bicho que pensa ser luz...Ou se sou o sonho que desejou despertar e viver uma vida própria que nunca pode dominar... Ou se sou o corpo onde entrei que sonha ser eu... Ou se sou fruto de minha própria imaginação... Imaginação de quem não se deu conta do que de fato é...Talvez, sou a realidade que resolveu sonhar... Já não sei... Ás vezes eu esqueço quem de fato sou e onde estou...

Minha realidade... Minha vida é tão Schrödinger... Meu corpo... Nada humano e tão gato... Gato disfarçado... Faz-me cigana das Eras... Sem morada fixa, sem projetos consistentes...Faz-me uma metamorfose contínua, serviçal de quem criou a falsidade cujo nome é tempo e a mentira chamada espaço...

Quando eu pisco meus olhos e os abro é o tempo que entro e saio e trago comigo tudo o que pude ver e absorver numa fração de milésimos de segundos... Não sei pra que e porque... Só ouço uma ordem que manda... Eu sinto um imã gigante que me atrai e puxa... Eu sinto e vejo um buraco negro enorme que se abre, como um olho de tufão me sugando e me vomitando de volta...

E me pergunto se estou sonhando... Ou se esta é a realidade sem disfarces... Pois a vida disfarça-se de vermelho intenso e vaza pela minha narina... Minha doçura dissolve-se e desaparece antes que encontre vazão... E meu corpo treme, e sucumbi... E ouço as vozes, e sinto os toques, e me sufoco com os estímulos e não posso me mover...Não posso falar... Nada obedece e pareço numa urna esperando para ser enterrada viva... E não sei se é sonho... Ou de fato é realidade...


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Diário da Exilada-A Mulher Desconhecida de Schrödinger de Shimada Coelho é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported.
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Diário da Exilada - Recipientes Ocos- IIV


Diário,
Sem data, pois é eterna como eu...

Ouço Flowers of the Sea... As memórias fluem como uma nitidez incrível! Um dia, vivi no mar... É muito mais simples lembrar do mar do que do ontem...

Olho para os vidros da janela cheia de marcas de dedos e patas de gato... As vidraças precisam ser limpas, mas do modo como estão me lembro de outras janelas... Janelas de navios e barcos perdendo-se nos abismos escuros dos oceanos... Um vidro separava meu toque da palma que tentava quebrá-lo. Eu nada podia fazer a não ser ficar ali naqueles últimos momentos que era cada vez menor a cada gole de água salgada...

Complicado viver assim... Mas era mais difícil quando eu acreditava ser a única: existem outros como eu. Nossa essência se difere das demais... Os demais percebem isso mas não compreendem... Chamam-nos de iluminados, luz que brilha, farol...Mas jamais podem ver o que de fato somos! Os nomes... São os que dificultam a comunicação das espécies... Tantos nomes e tão pouca compreensão...Limitam-se aos nomes, e esses não podem conter o real significado sobre tudo.

Muitos de nós estamos em lugares onde ninguém quer estar. Disfarces... Que escondem -se por trás de imagens que agridem o olhar dos cegos... Passam por um mendigo como se ele fosse um cabide de trapos... Mal podem perceber ali uma arca onde está guardada a verdadeira realidade. A maioria não pode encarar isso...

A maioria foge e escondem-se também... Atrás de um emprego bem sucedido, atrás de uma família aparentemente de bem, atrás de um carro do ano, atrás de pedaços de panos com etiquetas famosas, atrás do prestígio, da popularidade, de uma vida social... Para disfarçar o quanto são ocos... O quanto eles precisam desesperadamente de algo que preencha a vida que não querem encarar! A maioria rejeita-se a si mesmo! O que os olhos vêem parecem mais agradáveis... É mais aceitável ser como os outros... Não percebem o alto preço pago... Anulam-se e apagam-se!

Pensamento interessante... Vou até a geladeira e pego uma caixa de ovos... Todos os ovos são brancos... Todos são grandes... Todas as gemas também são iguais? Eu pego um deles e arremesso contra a parede... A realidade de muitos é uma enorme caixa de ovos, repleta de ovos iguais... Se houver um estragado, como saber se há uma casca que os envolve? Somente quando a casca se quebra é possível ver o que está dentro! Péssima sorte a dos ovos... Não possuem nenhum orifício nem recurso para mostrarem seu interior a não ser que sejam quebrados...

Entre uma tragada e um gole de café, um misto de amor e ódio pelos humanos. Nada vai mudar esses sentimentos... Sentimentos que criaram a queda... Humanos são castigo e missão... E através deles virá o perdão... Alto preço que se paga... Pela maioria, os Apocalípticos já teriam manifestado a sentença... A maioria é mesquinha e fútil... Hipócrita e insossa... Superficial e morta!

Alto preço a se pagar... Pela minoria... Almas encantadoras que são um espelho do Eterno! A minoria... Que despertou a cobiça pelo lugar de prestígio no maior dos corações... Eles possuem o direito a escolhas... Nós não!

(continua...)


-=trecho de livro inacabado=-

São Paulo, 20 de Novembro de 2008.


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Diário da Exilada- As Cartas que Nunca Serão Enviadas-I



Diário,
Sem data, pois ainda não aprendi a usar o tempo...

" A janela com seus vidros fechados, emoldurados pela fina e modesta cortina branca parece um belo quadro que revela o esplendor dos respingos de chuva.Uma imagem encantadora que convida a olhar o nada e ouvir-se. As folhas das árvores bailam felizes o frescor das águas que vertem com vontade. Estão de um verde intenso! O som da chuva parece uma canção de ninar...

Entre o sono que vem, os meus pensamentos que se deslumbram com o 'quadro' e as vozes interiores, um misto de sensações.

Se paga um alto preço quando o motivo de sua existência é trazer a humanidade as mensagens do despertar. É difícil manter a missão, limitado em um corpo vil repleto de vontades próprias, que desvia dos objetivos tão conscientes.

Houve um tempo em que a dificuldade era bem maior. Não bastava a fragilidade do corpo exposto as pragas e as batalhas de conquista dos bárbaros. Alcançar grandes distancias exigia mais que pernas fortes e um bom fôlego. Era preciso criar os recursos para se ter a permissão de embarcar nos grandes navios mercantes, ou ter algum fragmento de ouro ou objeto de valor para uma das carruagens da longa fila que rasgava o chão seco, ou ainda apenas caminhar junto aos nômades que criavam seus rastros pelo deserto,mantendo-me segura em grupos.

Hoje, fica apenas o desatino que os vícios desta prisão reclamam. Pode-se 'dizer' o que é preciso sem carruagens, camelos, navios, pernas fortes... Já faz pouco mais de dez anos que este recurso facilita minha vida. Alguns anos atrás já havia abolido a vida andarilha, dependendo de um lugar tranqüilo, seguro, com pelo menos água acessível. Ou dependendo da queda.O século passado trouxe conforto e cada vez mais a vida foi simplificada. Não entendo ainda o porquê, as pessoas continuam ainda sem tempo.

Tudo neste mundo é realmente incrível! Uma pena que depois de tanto tempo, ainda não consigo adaptar-me a ele. Não fosse a seqüência evolutiva que fomos ordenados a seguir, poderia ainda ser um gato. Leão não, não me adaptaria do mesmo modo em meio a urbanização. Certa vez, o homem primitivo pegou um gato selvagem de seu habitat natural e passou a criá-lo em sua moradia, procurando pacientemente provar de que era pacífico e possível conviverem tão próximos. Resultou no gato doméstico. Quem sabe se minha prisão fosse novamente um, eu me adaptaria como o gato selvagem adaptou-se. O gato é um de nossos parentes mais próximos... Os felinos são ainda os únicos do reino terrestre que conseguem com naturalidade estar aqui e lá!

Estou meio entediada de falar comigo mesma... Minha caixa de mensagens aberta no e-mail que recebe todos os e-mails...Esta é uma das boas facilidades... Mas de seis mil mensagens para serem respondidas. Esses pouco mais de dez anos deram-me muitos amigos, colegas ou apenas pessoas que encontram em mim 'ouvidos' para ouvi-los. Tenho amigos que conheci por este recurso tantos anos atrás... Uns conheci pessoalmente, outros não!

Algumas mensagens já demonstram no título a preocupação do remetente com minha 'mudez'. Abro, talvez seja urgente e precisem de algo. Não, estão preocupados comigo e sentem minha falta. Não vou responder... Justamente esses acreditam de verdade que eu posso passar energias pelas palavras que envio. No estado que me encontro, enviarei energias péssimas. Respondo alguns... Não sei porque... Fluiu simplesmente.

Estou completamente desinteressada, e terei de dizer a minha amiga da Espanha para tirar-me da moderação do grupo de discussão que incansavelmente convidou-me para estar com eles. Acreditam que é de suma importância que eu compartilhe minhas experiências espiritualistas. Mas, não há sentido tentar explicar as pessoas o que elas acreditam ao modo delas. E assim é. Isso não pode ser mudado: cada um vê o mundo como o entende.

Uma mensagem de outro grupo... Meu amigo insiste que eu retorne a outro grupo de discussões que sai faz algum tempo pelo mesmo motivo. Cada um tem sua opinião sobre tudo... Expô-la pode acarretar um enorme mal entendido. Há pessoas que precisam tanto 'estar certas', que usam qualquer recurso ou justificativa para impor isso. Não sou a dona da verdade, então não tenho que defender a verdade que só serve para minha vida. Convicção não se impõe: tem-se! Muitas virtudes não podem ser impostas, muito menos forçadas a ter: são conquistas!

Não consigo responder ninguém. O assunto das pessoas me enche de um tédio absurdo, e tudo parece tão desinteressante... Mas Maria está muito preocupada... Minha irmã de Brasília...Preciso respondê-la.

Não quero responder e-mails agora... Gostaria de escrever um poema para alguém especial... Ele é uma necessidade estranha e sem cabimento. Ele me incomoda, porque me vejo nele. Ele se parece demais comigo e isso me atraí. E me irrito quando penso como é irritante esse modo de ficar analisando as pessoas como faço... Como ele está fazendo. Ele está interessado em mim, mas creio que não como um homem interessa-se por uma mulher. Deve ser porque ele nunca havia visto um ser não tão humano, tão estranho assim.

Ele não precisa de mim, e nem eu dele. Não sei o que ele vê que o instiga... Sei que há algo nele que preciso e quero... Muito! Ele é aquele tipo de pessoa que atraí, e pode conseguir quem quiser pra si, pelo tempo que bem entender. Não, ele não precisa de mim... Precisa de algo que está comigo... Pensei seriamente em aceitar tardiamente o convite para um café. Odeio inventar desculpas... Mas é o medo de magoar as pessoas... Odeio magoá-las. Odeio ser magoada!

Seria simples: bastava ir! Mas temo fazer isso. Embora o que me trouxe a este mundo tenha sido a cobiça que contaminou o mundo e esta ainda mais presente que nunca, não é por ela que estou aqui. Algumas vezes quero acreditar que sim...Por causa disso, não vou. Porque o que quero está com ele e vou novamente desejar intensamente a ponto de cobiçar e querer pra mim. E querer o que desejo irá mais uma vez me tirar do destino que devo seguir. Ele me acha estranha... Não iria compreender o que mais cedo ou mais tarde irá acabar descobrindo. Eu sou estranha!

É... Melhor não escrever poesia alguma. Escrever sempre intensificou meus pensamentos e cravou todos eles na memória da minha existência.Preciso é refletir um pouco mais sobre mim mesma, para aceitar de uma vez, de maneira completa o que devo fazer desta minha vida.





-=Trecho de um livro inacabado=-

São Paulo, 03 de Novembro de 2008.


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