Destaque para outras Almas Nuas

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segunda-feira, 2 de abril de 2012

Vazão



O que dizer de sua dor? Haverá um momento em sua vida que - de tanto senti-la - se acostumará a ela.


Foi a dor que atingiu seu pico mais alto, latejou com intensidade tamanha que vibrou, despertando-me no meio da madrugada ao ouvir teus gemidos ensandecidos. Todos são capazes de suportar a dor, mas ninguém pode ser simpático enquanto a sente!


O abismo de distância que nos separa não é tão grande assim, porque tua dor doeu em mim! Doeu mais certificar-me que estás se habituando a ela... Ela é tua sensação mais verdadeira e verdadeiramente intensa!


A dor é algo assim tão pessoal! Ela tortura, massacra, dilacera e vai perfurando corpo, alma, coração e mente! Um breve momento onde a eternidade dá provas de que ela é possível! Tua dor é você entalando-se no estreito de seu Tempo!


A dor parece ser o único aviso deste mundo que alerta e de imediato damos a devida atenção - embora não signifique que teremos a atitude mais acertada ...


Porque a dor desespera por ser desespero gemendo! É a solidão mais doída quando falta o colo silenciador... Uma bússola incapaz de encontrar o Norte... É uma alma debatendo-se para avisar que é viva e um corpo contorcendo recusando-se morrer! 


Na dor há garantia do grito, mas não do alívio, muito menos de ser ouvido... Porque é algo assim tão pessoal...Intransferível... Mas assim como se pode sentir o Amor que por nós o outro tem, é possível sentir doer a dor de alguém!


A dor de amor me dói por ser uma ausência que - mesmo assim -  faz meu coração ver o mundo mais colorido porque - mesmo sem notá-lo - você não pode impedir que o mundo me pareça tão mais bonito! Mas maior dor é sentir o quanto te dói ter dor e nem poder curar suas feridas...


Licença Creative Commons
O trabalho Vazão de Shimada Coelho foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Devoção Fingida


Sensação desconfortável causando intensa repulsa é essa que sinto diante da hipocrisia humana. Essa máscara dura feita de pau, cuja coleção enfileira-se mudando feições que são apropriadas para determinadas ocasiões.
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Sinto ânsia ao perceber de modo tão evidênte as segundas intenções escondidas por detrás da falsidade... Ou seria o contrário? É falso aquele que aproxima-se sorrateiro e risonho, irradiando admiração e amizade sincera, quando na verdade pretende encurralar-te e sugar-te toda vitalidade e energia.
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E me vem súbito o pavor imenso de ver a máscara a cair lentamente, revelando um rosto disforme, pálido e moribundo, arreganhando sua boca torta de tantos dentes que mais parecem garras que brilham umedecidas pela saliva que escorre em gana...
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Pois estes caminhantes, vestidos de tantas máscaras que na verdade são lhes esconderijo para a própria negação, possuem olhos vazados e seguem em grutas escuras cujo bolor escorre verde por paredes que criam tremenda escuridão, fazendo com que rastejem lentamente feito cobras, apalpando com as mãos que vagueiam desnorteadas buscando onde escorar-se...
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Estes, podam-se a si mesmos a todo instante... São Cristos que negam-se a si mesmos a todo cantar do galo... São a repúdia que apontam e censuram, fazendo-os pintar de negro seus espelhos...
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Ah, eu sinto! Sinto uma enjôo repugnante em tentativas de vômitos sufocantes, ao deparar-me com seres fingidos de estrelas, seres fantásticos e míticos, quando na verdade são restos do que um dia foi vivo, perdidos num fundo de poço sem utilidade, de onde fazem escapar suas mãos trêmulas e ressequidas, na tentativa de agarrar qualquer coisa viva que possam tragar.
Shimada Coelho
Publicado no Recanto das Letras
Texto com o código T1650533
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Dê ao autor os devidos créditos.


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Devoção Fingida by Shimada Coelho is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Você já dançou com o demônio sob à luz da Lua?


Não sei se o Demônio esteve presente na dança que dancei: ele me repugna! Mas diante da Lua tão repleta de si mesma, exibindo-se de uma luz que nem emanava de si própria, eu me despi dos trapos que vestia e dancei diante dela com meus demônios interiores mostrando-lhe que mesmo eu presa nesta terra, vivendo do desejo de estar levitando nos ares feito ela, não podia brilhar num céu, mas podia criar minha própria luz.
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Um momento que este corpo vil passa, passa imperceptível. Um momento para a alma que insiste mostrar-se presente e real, é uma eternidade com a possibilidade de absorver numa fração de segundos cada detalhe insignificante.
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Morremos várias vezes durante a vida... Acordamos várias vezes também. São milhares de portas que abrimos ao longo da existência, e se por detrás de alguma surgir algo incrivelmente satisfatório, é por ali que passamos maior parte de nosso tempo. Todos os cômodos que entramos, nos oferecem nova porta para ser aberta, e sempre haverá o momento em que nos obrigamos abri-la. O sono não é eterno...
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Estar acordado é na verdade dormir e entrar num sonho fantasioso e fictício... E durante todas as partes deste tempo também ilusório, estamos entre dormir e despertar. Não será por isso que conseguimos ser tantos em um dia só? Não será essa a causa dessa variação de nosso humor, postura e desejos?
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Por que responder? Por que tudo precisa ter uma explicação lógica? Aquele que explica tudo não tenta de certo modo estar certo em algo, ou tenta justificar-se? Em cada linha escrita, quantas vezes eu despertei e voltei a dormir? O agora já é passado e porque explicá-lo ou justificá-lo? Todas as portas, visíveis ou não recebem seus passageiros errantes que modificam suas vidas e o 'Agora' assim que passam por todas elas. Um passo pode mudar uma vida inteira! Uma palavra pode dar um sentido completamente diferente daquilo que se quis dizer...
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O que não muda em tudo isso é o fato de sermos o que somos: essa coisa que tentam dar nomes que não a definem, que muda constantemente durante segundos... Nós somos como a Terra que gira, gira, e nossa impressão é que gira lentamente... Parecemos inertes faróis de luz apagada, mas a luz brilha do outro lado...
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É inércia debruçar-se sobre o rio e olhar o rio passar? O rio passa, e aquele momento que passa e que o rio com ele passa jamais tornará... Mas ali, naquele pequeno momento que passa, vem, passa e ficam as respostas. A vida é assim como nós de carona com ela, somos um rio passando por baixo de pontes...
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Eu penso: jamais erramos! Fomos projetados e constituídos pela Perfeição que não erra, ora não posso errar. Não erro porque opto, mas porque não produz erro o que foi concebido com perfeição. Somos e vamos deixando de ser, acertando e acertando desmanchando-nos e recriando-nos e no fim, não deixamos de ser, mas acrescentamos ao ser...
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Hoje, é o resultado de passos certeiros dados no passado... Este momento já era naquele passo que passou e nunca tornará a ser...
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Nós... Cebolas Absolutas que não se cansam de despir-se de suas camadas que nunca encontram seu centro... O abismo é profundo...
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Então... Dancei diante da Lua exibida que brilhava com uma luz que nem era dela que emanava, me despi dos trapos que vestia e ela iluminou-me como as luzes da ribalta... Eu dancei com meus demônios interiores que conhecem melhor este meu centro de abismos profundos onde eu mesma não posso chegar... E cometi o erro certo de copular com todos eles, diante daquela Lua exibida e mostrar que posso criar minha própria luz.

São Paulo, 22 de Janeiro de 2009.
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-=Shimada Coelho=-
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Publicado no Recanto das Letras
Texto com o código T1399677
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Você Já Dançou com o Demônio Sob a Luz da Lua? by Shimada Coelho is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.