Destaque para outras Almas Nuas

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domingo, 5 de janeiro de 2025

Entre amar e ser amada.

 Tudo o que ele me pediu foi para que pudesse me amar por nós dois! E como negar tal pedido? Eu nunca havia visto alguém me olhar com tanta admiração e demonstrar estar tão encantado pela reles mortal...

Há uma linha tênue entre amar e ser amado... Eu me enganei tantas vezes acreditando estar amando e tudo o que vivenciei fora apenas mais informação para meus estudos... Eu nunca me senti realmente amada por um homem, até que o conheci.Quase quatro anos de romance à distância e nos encontramos apenas uma vez: passamos cinco dias juntos. E juntos comprovamos que, quando alguém realmente está interessado em alguém, encontra tempo, algum jeito para estar mais perto.

Um homem experiente, bem mais velho que eu, que conhecia o universo feminino como ninguém. Ele respeitou o fato de eu não estar pronta para a relação sexual... Mas, vivemos o romantismo do toque juvenil, da excitação, dos beijos ofegantes, do desejo sendo reprimido. Eu quis um pouco mais, mas, sentia vergonha do meu corpo: resquícios do trauma de um relacionamento abusivo. Ele me deixou tão segura para que eu me mostrasse... Eu estava sentada à beira da cama... Com vergonha de me mostrar, tirei apenas a blusa... Ele notou o esforço com o qual eu tentava retirar o restante do que eu vestia e tão gentilmente, me ajudou. E quando estava totalmente nua diante dele, com vontade de me cobrir novamente, ele se ajoelhou diante de mim com uma expressão que nunca experimentei: era como se eu fosse única, diferente de tudo! Ele admirava com a boca entre aberta, olhando cada parte de mim. Eu sentia vergonha das marcas no meu corpo...Escondia minha barriga com os braços e dizia "não quero que veja minha barriga". Ele disse: "Não chame de barriga! É seu lindo ventre! O ventre que recebeu seus filhos!". Nem esta consideração recebi na Vida.

A mão dele flutuava pelos contornos:  um misto de desejar tocar e querer respeitar e venerar. Sim! Ele me venerou! A primeira vez em que um homem fez mais do que se curvar diante de mim: ele se ajoelhou e assim ficou por um bom tempo, apreciando como quem olha uma pintura. Então, ele pediu: "Deixa eu mapear cada centímetro do teu corpo, memorizar e levar comigo até o fim dos meus dias!". Eu que tanto ouvi o quanto meu corpo era feio. Eu que passei a acreditar que fosse feia. Senti aquela mão com um toque tão singular, passeando lentamente pelo meu corpo como que memorizando cada centímetro de fato. Então, eu ouvi que era uma rainha. E como rainha fui embalada e dormi. Quando despertei, ele se tornou um súdito, com uma mesa posta para meu café da manhã. Logo após, durante o tempo em que trocava de roupa, tudo estava limpo, arrumado e em ordem. Ele não me permitia fazer nada: "Você é uma lady!".

Quando retornei para casa, esperei o previsível de qualquer homem:ele iria se afastar aos poucos, iriam começar a surgir as desculpas, as ausências até sumir de vez. Mas, assim que cheguei ao aeroporto, ele já me ligava para saber se eu estava bem. Desde então, sou eu que ele quer na Vida dele: sem ter olhos para outras, sem namoradas ou encontros, sem paqueras virtuais ou reais, sem a necessidade de alimentar seu Ego e reafirmar sua masculinidade. Porque, como diz ele eu sou "completa, todas e tudo em uma, a presença marcante" que ele não esquece.

Este trabalho está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A Colher de Pau

Bruxas e Magas Individuais gostam muito de colher de pau por seu significado.

Na Idade Média e no período posterior - quando a Inquisição foi mais ferrenha - era comum o uso de colher de pau. Hoje temos nossos talheres de inox mas, naquele tempo uma colher era de madeira sendo em vários tamanhos.

As camponesas e aldeãs praticantes da Experimentação às vezes, se reuniam para trocar receitas, experiências e ideias. Precisavam fazer isso  escondidas porque, reuniões entre mulheres só era bem vista na realeza. Então, estas mulheres à frente de seu tempo criavam um verdadeiro Clube da Luluzinha. 

Estando o tempo todo vigiadas por delatores da Inquisição, precisaram encontrar um meio de avisar umas as outras quando seria a próxima reunião. Passaram então a usar a colher de pau como aviso: se ela estivesse colocada em pé dentro de um recipiente ou com um laço, significava que aquela noite iriam se reunir na floresta. Os encontros eram noturnos porque era o período em que todos dormiam e havia menos chances de serem descobertas. Na floresta porque estavam distante das moradias e ninguém as ouviriam conversando, rindo e cantando.

A tradição do uso da colher de pau pelas Bruxas e Magas Individuais atravessou o Tempo não somente em memória as irmãs perseguidas e queimadas em fogueiras. Segundo a tradição, a madeira é condutora de energia. O preparo de receitas é um ritual de Transformação onde se manipula todos os elementos da Natureza. A colher de pau serve como extensão da mão e do braço. Também do coração pois, toda mulher que sente prazer em cozinhar tem como ingrediente principal em suas receitas Amor! Assim como a pena para o escritor, a colher de pau é uma extensão do coração cuja vibração do Amor pode alcançar os elementos manipulados através da madeira condutora. (Pois, que todos os elementos foram criados em Amor e apenas em Amor podem ser transformados para resultar em algo benéfico).

Foi daí que nasceu a ideia da varinha de condón...


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A Colher de Pau de Shimada Coelho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Conversa à Luz de Vela


"A chama da vela tremia ao passar pela porta entreaberta o vento sereno, distorcendo os rostos atentos cujas rugas começavam a surgir - ora pelo excesso de Sol na labuta, ora por causa do passar dos anos.

Uma única voz era ouvida narrando histórias de assombrações que apareciam ao longo dos caminhos estreitos em meio as plantações da roça interiorana mineira.

O narrador parecia estar ali no local dos fatos... Sua alma parecia estar voando em outra dimensão, embora as mãos calejadas e experientes cortassem o fumo de corda amparado pela mesma mão que segurava entre os dedos a palha.

O bule ainda soltava fumaça do café recém passado que enchia as canecas de ágata e espantava o sono que se encostava por causa de tanta atenção e mudez.

Findava-se a história, passava-se a vez... Outra se iniciava e mesmo os ruídos feitos pelas juntas das velhas cadeiras, o ranger das dobradiças enferrujadas da porta entreaberta ou os sons noturnos na escuridão não causavam espanto nem susto.

Nenhuma história de fantasmas ou espíritos era capaz de tirar a beleza dos vizinhos reunidos à noite - longe da existência da TV - contando causos da vida."


Licença Creative Commons
O trabalho Conversa à Luz de Vela de Shimada Coelho foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
Com base no trabalho disponível em http://shimadacoelho.blogspot.com.br/2012/08/conversa-luz-de-vela.html.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Platônico


A amiga lhe disse:
- Você fica bem apaixonada! Bem e feliz!


Elisa precisava viver apaixonando-se! Era uma Garimpadora de Eternidade! Pois acreditava que a eternidade era grande demais para caber em Deus, então Ele pegou um bom bocado e dividiu, distribuindo porções generosas em pessoas e em pequenos e sutis detalhes. Quando ela encontrava eternidade, apaixonava-se!


Apaixonou-se por coisas que ninguém pode imaginar, pois quem está atento aos detalhes? Namorou nuvens, cobiçou a textura das pétalas das flores... Apaixonou-se pelos micros rios nas folhas, pela estrela retardatária, pelo vento esvoaçando seus cabelos, pelo minúsculo frescor em uma gota de chuva, pela fantástica complexidade em um floco de neve...Mas também se apaixonou por um cavaleiro que, ora galopava nos ares sobre seu cavalo alado branco, ora caminhava sem rumo arrastando sua capa real que distorcia seus rastros...


Ela amava apaixonar-se por ele todo santo dia! Apaixonou-se à primeira vista nas primeiras entrelinhas que ele discursou! Ele não tinha rosto e nem nome, mas era o ser mais lindo que já tinha visto! Mas ela mora no outro lado na ponta do abismo!


Mesmo assim, ela não cansa de apaixonar-se! Apaixona-se pelo ser sem rosto e sem nome, cuja voz é apenas o último gemido do eco, e que mora lá do outro lado da ponta do abismo, junto de seu cavalo alado branco, e que às vezes precisa de um abraço que nunca poderá receber...


Porque garimpando por ai, Elisa descobriu que não há nenhum prazer na partida, apenas ansiedade e expectativa. E que também não há prazer na chegada, apenas cansaço e exaustão. Todo prazer está no trajeto!


E ela mantém-se de pé na ponta do abismo, contentando-se em imaginar como seria o rosto se tivesse face - talvez um Sol...E como seria o sussurro de sua voz aos seus ouvidos - talvez um sopro de vento... Como seria olhar nos olhos - talvez aquele abismo...


Pois descobriu que a eternidade estava em estar apaixonado, não na posse! Desejar, querer, sem ter! O beijo mais gostoso é aquele que não se pode dar! A vontade de beijar é um beijo eterno! O abraço que ele quer ela nunca dará, assim ele sempre desejará o abraço!


Elisa se apaixonou por ele... Sem expressar, sem confessar e sem declarar! Platônico! Porque ela bem sabe o que virá depois... E quando conquistá-lo será como sempre é... Mas enquanto estiver assim, será eterno!  Ela se apaixonará por ele até que tudo de bom que ela tenta fazer chegar até ele continue também no meio do caminho... Caindo dentro do abismo e criando uma ponte!



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O trabalho Platônico de Shimada Coelho foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

sábado, 17 de setembro de 2011

A Montanha e o Vale

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Imagem: autoria desconhecida.
Retirada do site: Carrinho de Pipoca




O pequeno discípulo aprendiz tinha uma lição que parecia aos seus olhos bem simples. Seu mestre ordenara que subisse a montanha e quando bem pretendesse deveria descer trazendo consigo o que havia aprendido.

Durante quase uma semana escalou a montanha, sentando-se vez ou outra para tomar fôlego e percebia que as nuvens pareciam cada vez mais baixas. Nas noites frias, procurava um lugar onde pudesse acomodar seu corpo. Sem nenhum conforto, olhava as estrelas tentando pegar no sono.

Assim foi até alcançar o topo da montanha. Jogou sua trouxa ao chão e caiu de joelhos: seus pés latejavam de dor e suas mãos estouravam em grandes bolhas.

Havia ainda comida e água suficiente para um dia e uma noite, então, decidiu ficar ali e descansar para iniciar a descida. A descida era bem mais difícil e parecia levar muito mais tempo para concluí-la. Mas enfim, chegou ao pé da montanha e encontrou o mestre:

- Trouxe consigo a lição? - perguntou o mestre.

- Sim, Sensei! Para se conseguir alcançar um objetivo é preciso muita perseverança! - respondeu o discípulo ofegante.

- É uma boa lição... Mas você já deveria ter aprendido isto com muito menos esforço!

O mestre estendeu a mão e entregou uma trouxa cheia e pesada e disse:

- Você ainda não aprendeu! Volte até o topo da montanha!

Contrariado, o discípulo obedeceu e repetiu o percurso. Chegando ao topo estava bem mais cansado e agora as bolhas nas mãos estavam abertas em feridas. Diferente da outra vez, nem desejou repousar: queria acabar logo com aquilo. Retornou ao pé da montanha e encontrou o mestre Sensei:

- E então?

- Se você não aprende a lição da primeira vez terá que repetir o trajeto até que aprenda a lição... - disse o discípulo apoiando-se com as mãos nos joelhos.

- Pensei que esta você também já tivesse aprendido, mas disse bem... - estendeu a mão e ofereceu outra trouxa.

Isso se repetiu por várias vezes até que o discípulo, sentindo-se fracassado e incapaz, disse:

- Mestre Sensei... Sou indigno de aprender esta lição! Não sei o que tenho que aprender com ela...

Como que já sabendo que esta seria a resposta do discípulo, o mestre entregou-lhe outra trouxa e carregou consigo uma também. Convidou o discípulo para subirem novamente até o topo da montanha.

Durante o trajeto o mestre colhia folhas e flores de ervas. Sentava-se vez ou outra e sorridente admirava a paisagem. O discípulo observava atento cada movimento. Na primeira noite na montanha, o mestre preparou um emplasto com as folhas e flores que encontrou no caminho e colocou nas feridas do discípulo.

Logo chegaram ao topo da montanha, e desta vez, o discípulo sentia as pernas mais firmes e o caminho lhe pareceu mais curto.

- Quando alguém nos acompanha pelo caminho, a caminhada é mais fácil, Sensei...

- Sim... Mas esta não é a lição que quero ensinar. Durante o trajeto há muito que aprender! Mas existe uma única lição que precisa ser aprendida para que as outras sejam possíveis e façam sentido.

O Sol nascia no horizonte quando chegaram ao topo da montanha. Sentaram-se e o mestre preparou um chá que tomaram enquanto admiravam a paisagem.

- O que você pode ver aqui de cima?

- Toda a beleza do Vale, Sensei! Não tinha notado antes. Estava muito focado na dor e no cansaço que sentia...

- E o que você vê aqui em cima na montanha?

Olhou em seu redor e percebeu:

- Nada cresce aqui! Toda a vegetação está em volta da montanha!

- Se quiser ver toda a beleza do Vale é preciso sair dele e subir a montanha. Não há nada no topo da montanha. Tudo o que você precisa só conseguirá no Vale!



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A Montanha e o Vale de Shimada Coelho é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.