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sexta-feira, 18 de março de 2011

O Namoro com o Vento


Eu era ainda bem pequenina quando passei a namorar as nuvens. Deitava-me no chão de terra de braços e pernas abertas, a céu aberto, e fingia voar! Todo aquele céu e nuvens brancas acima de mim e eu imaginava estar pulando de nuvem em nuvem...

Pouco tempo depois fui estudar no Jardim de Infância, ou Prézinho como chamavam na época. Eu já havia recebido aulas de alfabetização e por isso, já sabia ler. Uma das atividades na escola era a leitura na biblioteca. A maioria dos coleguinhas preferia histórias em quadrinhos e livros infantis com poucas frases e muitas ilustrações, pois não sabiam ler muito bem. Já eu, lia sobre as bruxas, os gigantes, os duendes, os dragões e Tutankhamon. Certa vez, encontrei um livro cuja capa jamais esqueci, pois a ilustração era a mesma que havia entre as páginas. O desenho era de um contorno fino, sem preenchimento.

Na história, o vento se apaixona por uma moça bonita de longos cabelos. Ele entra janela adentro enquanto ela dormia, afaga os cabelos, acaricia a pele, envolvia o corpo da moça como em uma dança. Ela sentia frio e fechava a janela. O vento entristecia-se...

A lembrança sobre a historia em si é vaga, mas lembro-me de pegar o mesmo livro umas três vezes... Foi quando passei a namorar o vento. E por toda a minha vida foi assim. Ouço seu som como uma voz... Percebo seu humor enquanto passa...

Enquanto as nuvens - que ainda namoro - me levam a imaginar que estou voando, o vento me faz voar sem sair do chão. Talvez ele não tenha uma voz... Talvez ele leve por ai os pedidos e pensamentos das gentes... Talvez ele nem saiba que eu exista e quando penso que ele me abraça, apenas me contorna por eu estar no caminho dele, feito pedra no meio do rio...

O que sei mesmo é que nesse namoro com o vento, ele acabou se tornando meu melhor amigo. Conta-me sempre histórias de outros lugares longínquos no espaço e no tempo... Fala-me dos segredos que as pessoas compartilham com ele enquanto observam a Lua, que na verdade não é muito atenta ao ouvir as confissões dos apaixonados, pois ela sempre esta pensando no Sol...Triste sina a da Lua: sabe que seu amado existe, mas não pode vê-lo muito menos tocá-lo...

Dias atrás me lembrei desse episódio de minha infância e percebi que embora eu ame tanto o vento, não foi por ele que me apaixonei naquela época. Foi pelo desejo de amar mesmo sem ser amado. Foi por aquele sentimento de ter o amor tão próximo sem nunca poder tocá-lo. O amor calado, em segredo e solitário.

Eu sempre me apaixono pelos sentimentos que se pode sentir. Por esta capacidade unicamente humana de ter dentro de si mares turbulentos, borboletas, ventos intempestuosos e ter que reprimir tudo isso.

Apaixono-me pelas tentativas de ocultar o que se pensa de verdade, pelas palavras que saem da boca e que não são as mesmas que estão no coração... Pela mão que arde desejando apenas tocar outra mão e o esforço de contê-la... Apaixono-me por todos os sentidos que tentam esconder as verdades de si mesmo, e pelo fato de que apenas um deles jamais nega algo e sempre é sincero:

- Me apaixono pelos olhos cujas íris se transformam em planeta num universo tão único e que sempre expressam tudo aquilo que o resto do corpo não quer dizer! Pelos olhos que revelam, mesmo sem querer, todo o mistério interior!



Licença Creative Commons
A obra O Namoro com o Vento de Shimada Coelho foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

quinta-feira, 17 de março de 2011

A Violeta que se Tornou Rainha



de Gonçalves Ribeiro


"Como Priscila gostava de flores!

Havia em sua casa um jardim muito bonito. E era nele que Priscila gostava de ficar. Passava ali o maior tempo que podia, conversando com as flores.


E não é que as flores conversavam com ela? A todas Priscila conhecia. As rosas amarelas, as rosas brancas, os cravos, as margaridas... Uma infinidade de flores.


Um dia, Priscila resolveu fazer um concurso para ver qual era a flor mais bonita.

Entrou em casa e preparou a faixa, uma faixinha pequenina, e escreveu nela o título de Rainha da Beleza.


Depois, ficou preocupada. E as outras espécies de flores? As que perdessem? Não iriam ficar contentes, não é mesmo?


O coraçãozinho de Priscila não resistiu, e ela preparou uma porção de faixinhas: Rainha da Graciosidade, Rainha do Perfume, uma porção de títulos. E para o cravo? Ah! Já sabia. E preparou uma faixa: Rei da Simpatia.


Assim, ninguém ia se aborrecer. Cada flor ia receber um título. A mais bonita de cada espécie, é claro.


Mas e as outras flores que não eram as mais bonitas? Então, ela fez mais faixinhas: Rainha da Beleza II, Rainha da Beleza III, e não sei quantas para todos os títulos.


Finalmente Priscila realizou o concurso. Uma por uma, as flores foram sendo eleitas. Logo, todas estavam com uma faixinha. Era sorriso por toda a parte.


Foi então que Priscila ouviu um suspiro e uma voz:

- Só de mim ela não lembra!


Priscila procurou quem havia dito aquilo.

- Ué! Será que esqueci alguma flor?


Ouviu outro suspiro, procurou entre as folhas, e encontrou uma violeta.

- Eu não sabia que você morava aqui!- Disse Priscila, admirada.


- É porque sou muito humilde que ninguém lembra de mim!


- Nada disso! Aí é que está o seu valor!


Priscila entrou correndo, fez uma faixinha muito pequenininha, voltou correndo e colocou na violeta.


- Você está eleita a Rainha da Simplicidade. Só que não deu tempo de escrever o título. Também, não dava. A faixa é tão pequenininha...


A violeta ficou toda contente, depois saiu de mansinho e sumiu entre as folhagens."



Quando pequenina minha mãe comprou-nos uma coleção de livros chamados Pesquisando e Aprendendo 1º Grau, onde cada um representava uma matéria. No livro de Português, na última página encontrei este singelo conto. Lí e reli várias vezes.


 Lembro-me até hoje como minha imaginação voava solta, quase que visualizando o jardim com tantas flores, o trabalho da menina em fazer tantas faixas e eu pensava: "Mas são tantas faixas e tão pequenas!Que trabalhão!"


Meses atrás, fui até a casa de mamãe vasculhar os livros antigos e tive um novo encontro no jardim de Priscila. Cresci nunca me esquecendo a bela mensagem oculta nestas linhas e hoje compartilho, lembrando a lição das violetas: para que suas delicadas pétalas se desenvolvam perfeitas e viçosas, elas brotam em botão escondidas por debaixo da folhagem.