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quarta-feira, 27 de março de 2024

A Criança em Nós.

 


As vivências da infância permanecem vívidas na minha memória desde o berço e, na não casualidade de tudo, a razão deve ser para que eu jamais decepcione aquela criança que se encantava com pequenos detalhes ou grandiosas manifestações da Natureza. Que se deslumbrava com tudo ao seu redor: cheiros, cores, sons, movimentos.

Aquela criança enxergava o mundo de modo tão especial! Ela nunca se perguntou se o mundo todo era só aquilo que os olhinhos podiam alcançar: pra ela, tudo aquilo era o mundo todo! O encanto da Vida se manifestando em toda parte, faz com que, até hoje, eu me refira a estes encantos como Milagres Constantes!

Que bom que aquela criança tão feliz, não está mais aqui pra ver o que o mundo se tornou... Os quintais não possuíam limites, mas um dia, vieram cercas e depois muros. Hoje, tantos outros muros existem: como aquela criança viveriam em um mundo tão limitado?

Por cinco longos anos - porque pra ela não existia o Tempo - a Vida lhe permitiu sentir, experimentar e vivenciar todas as maravilhas do viver e da Vida Plena. Tudo era alegria: a bronca era apenas um aprendizado. As quedas constantes, ralavam o joelho, mas, ele se curava e a pele ia ficando grossa até que cair, já não doía mais.As estações mostravam como a beleza possuí tantos tons e tantas variantes... Ficar deitada de bruços no chão, observando atentamente a fileira de formigas, lhe despertava questionamentos...

Um dia, a criança estava em cima do pé de Jasmim Manga, olhando flor por flor e se perguntando de Deus havia usado giz de cera no centro de cada uma para que aquele amarelo ficasse tão lindo junto ao branco alvíssimo, quando um Louva-a-Deus pousou ao lado, no muro: a criança ficava sentada nos galhos altos para observar além do muro. Ela associou o  inseto estranho - que ela já conhecia nos livros - ao seu questionamento do giz de cera... Ela tentou ver em que direção o inseto olhava com as patinhas dianteiras juntas, como em prece...Ele não olhava para o céu: olhava para as flores. Mais que depressa, ela se colocou ao lado do inseto, juntando suas pequenas mãos e o imitando, agradecendo pelo milagre constante das flores...

Até ali, Deus era isso: a pureza de uma criança. E à partir dali, a criança começou a morrer... Quando a religião, a política e a sociedade, começaram a exigir tudo que mata a inocência e a pureza. Foi a primeira vez que a criança foi violada e forçada a se encolher cada vez mais...

"Ser adulto" é um fingimento para dizer-se que não se é mais criança, mas, ela está lá, bem lá dentro de cada um, encolhida... Nos observando todo tempo e se perguntando se somos parte daqueles que contribuem para a morte da Inocência...


Este trabalho está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0

sábado, 16 de março de 2024

Queria...



Um chão de terra pra andar descalça e ver meu pé sujinho de poeira...

Banho de chuva sem medo dos raios me matarem...

Sentir o barro vermelho sem medo de pegar leptospirose...

Andar mata adentro sem medo de mal elemento a espreita, e poder ouvir o som dos pés pisando folhas secas...

Pisar na grama sem plaquinha "não pise na grama" e deitar, mastigando aquele longo capinzinho arrancado igual na infância, usando os antebraços de travesseiro e ver bichinhos nas nuvens...

Não pensar que horas são: se hora de ir embora ou o quanto ainda posso ficar...

Não pensar onde é meu lugar, apenas Sentir que Sou e Estou...

Olhar peixinhos no lago de águas claras e perder a noção do Tempo...

Colher flores silvestres pedindo "licença"...

Brincar com as borboletas, e dançar sem música com o Vento...

Ver o por do sol, sem perceber nada com os ouvidos, com os medos, com os conceitos, sem pensamentos... 

Até que venham como estrelas terrestres os vaga lumes que nem se vê mais...



Este trabalho está licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Uma Voltinha ao Passado


 Arrumei mais uma vez um pretexto para conseguir sair de casa e caminhar. Apesar do calor, o vento está bem presente e refresca. O movimento está tranquilo na parte da tarde: serão as férias ou o  calor que dá preguiça? Sigo caminhando curtindo o vento, buscando sempre onde há calçadas com sombras, imaginando que alguém deve achar esse zig-zag estranho. Sigo e o caminho usado é o mesmo que faço à mais de trinta anos, embora eu esteja no bairro há 51!

Eu nasci no Capão Redondo! Aqui eu fui criada, casei, tive meus filhos, os criei, os vi voar, me divorciei: assisti todas as mudanças que hoje dá sentido a um plebicisto que houve há anos atrás querendo saber se a população aprovava ou não a emancipação do bairro: aqui sempre teve porte de cidade, embora no início fosse roça.

Desde que me casei, o trajeto a pé até a avenida é o mesmo e é seguindo este caminho que passo pela  rua da casa do meu tio mais velho, minha tia e primos. Quando a área foi loteada, os filhos casados de meu avô resolveram comprar terrenos vizinhos para manter a proximidade com ele. Era este meu tio mais velho que ficava com a guarda de meu avô, segundo a tradição japonesa e era na casa atrás, na rua de cima, onde nasci. 

Então, toda vez que passo por esta rua, eu olho para casa de meus tios. Do outro lado da rua existe um córrego a céu aberto. Hoje, quando se fala em córrego na cidade, imagina-se apenas um fluxo de esgoto, mas, exatamente este córrego, era muito frequentado na época em que havia muito mais mato do que gente: muitos vinha de longe pescar. Acredite se quiser: por toda esta região haviam nascentes e por isso, vários córregos cortam o bairro. Alguns foram "sepultados", mas, sabe-se bem onde estavam quando a chuva intensa os trazem a vida!

De repente, senti falta de passar observando a determinação do córrego em continuar vivo apesar do esgoto. Depois de nem sei mais quantos anos de brigas judiciais entre prefeitura e proprietários, resolveram como tornar possível a tão esperada linha do Metrô. A linha será suspensa: passará acima do córrego. Para isto, emparedaram o córrego o estreitando. Quase cinquenta anos observando este córrego... Eu sabia que ele não iria se comportar bem... Enfim, os muros colocados às margens do córrego não permitem mais que eu veja o esgoto destruindo a água que vem de nascentes, muito menos lembrar que, na infância, eu podia ver ainda as pedras enormes, arredondadas e amareladas ao longo do trajeto das águas... Lembrar quando  'franjas' verdes foram surgindo nas pedras avisando que o córrego estava sendo agredido...

Tudo isso juntou-se a ida até a loja de cosméticos que era em outro endereço, mas, comprou a grande última memória do centro comercial do bairro... A loja de dois andares dos Inoue's, que minha mãe tanto frequentava não apenas por ser amiga da família de japoneses, mas, porque eles vendiam tudo o que uma costureira como ela precisava. Eu cresci encostando naqueles balcões de madeira maciçaouvindo as conversas e mais tarde,  pedindo algum armarinho ou algo para minhas pinturas... Naquela época, ainda se usava a caderneta de fiado... Tudo aquilo desapareceu de vez. Quando sai da loja, parei na calçada e via o passado e o presente se sobrepondo.... O passado vai sendo apagado pelo presente...

Um nó me veio a garganta no caminho de volta pra casa... Parei na "ponte"  - que na verdade é a rua - onde eu, ainda tão pequenininha, implorava para minha mãe deixar eu olhar as águas: eu nem alcançava a mureta e precisava ser erguida... Hoje, na mesma mureta, muito ferro onde serão os trilhos e mais esgoto, apesar de, as águas estarem mais fortes e parecem estar mais determinadas. Segurei para não chorar..

Na casa da esquina, sr Laércio que já se foi... O bar do sr Lorival ali até hoje, onde meu pai e meu tio se encontravam e para onde há algum tempo atrás, meu tio "fugia" para rever os amigos... A casa da Zulmira, amiga e cliente da minha mãe, do mesmo jeito... E assim fui caminhando, lembrando que sempre que passavamos por ali, demoravamos para chegar em casa, pois, eram muitas paradas para cumprimentos e saber de novidades: até hoje se encontra um velho conhecido pelas ruas.... A casa da dona Neca, que foi professora de modelagem de minha mãe... A casa dos meus tios... Foi neste ponto que não aguentei segurar mais e chorei...

Uma cena estranha surgiu... Varias cenas em tempo diferentes com pessoas diferentes se sobrepunham até que ficasse apenas o que está hoje: vazio... Era ali que vi meu avô com seu sorriso largo que parecia um sol... Era ali que tia Marieta dava um tempo  de sua vida corrida porque ela queria fazer tudo... Era ali que meu tio disfarçava até pouco tempo, fingindo estar tomando um sol e olhando o movimento para, de repente, fugir pra papear com os amigos... Tio fujão!

O choro estava doído... Talvez, só agora eu esteja conseguindo ter um tempo pra processar as perdas... As pessoas que tanto amo estão longe ou já partiram... Talvez, eu não notaria o quanto o bairro mudou se eles ainda estivessem aqui... Porque não é sobre o bairro... É sobre minha história e as pessoas que tornaram possível que eu a escrevesse... Não é sobre o bairro... É sobre meu berço e minha origem!


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Uma Voltinha ao Passado de Shimada Coelho está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Em que Vale à Pena Acreditar




Tenho amigos de infância que considero jóias de imenso valor e que fazem parte do meu tesouro: são partes das preciosidades desta vida que não abro mão.Passamos a maior parte de nossa infância na escola do bairro onde moro até hoje... Praticamente crescemos juntos, e fomos testemunhas uns dos outros da passagem da infância para adolescência, das descobertas da vida, do amor, dos obstáculos, da chegada da juventude, das confusões emocionais, da hora de ser adulto. Depois de pouco tempo após nos formarmos e sairmos da escola, cada um precisou seguir seu rumo atrás de suas conquistas, encarando a Vida que cada um precisava encarar... E por alguns anos ficamos separados... Distantes... Até que a rede virtual possibilitou que todos fossem encontrados. Houve o primeiro reencontro... O segundo... A constatação de que apesar de todos terem amadurecido bastante, aquela criança do passado ainda estava viva e a cada reencontro a sensação de que o tempo não passou, que paramos no tempo, e que ainda éramos uns para os outros os mesmos.Como era antes, tornou-se impossível aceitar a distância e os reencontros sempre acontecem.

Hoje, tivemos que nos reencontrar de um modo que nunca esperávamos. Pois juntos parecíamos tão crianças e eternos... Juntos, o tempo parava, regredia e estacionava naquele tempo crucial que permitiu que cada um de nós criasse nosso caráter... Os anos passaram e não nos demos conta... Os filhos da década de 70, que se descobriram nos anos 80 pararam no tempo, embora o tempo esteja sempre curto, embora sempre estejamos sem tempo...

Um de nós partiu. E tivemos que nos reunir para nos despedir. Uma despedida dolorida, pois não haveria como sempre ocorre, a possibilidade de reencontro.Eu olhava para cada um deles cheia de orgulho por ter convivido com eles num período tão importante de nossas vidas. Eu enxergava com clareza o valor de cada um para este mundo, para minha história pessoal, para minha vida.


Impressionante lembrar que mesmo quando estávamos tão distantes uns dos outros, a simples lembrança operava milagres como se nunca tivéssemos nos separado.O tempo passou tão rápido, mas cada rosto ainda é o mesmo...

A dor da perda não foi maior porque estávamos juntos. Nos apoiando uns aos outros, consolando e oferecendo generosamente carinho, como na infância nos momentos de confidência ou peraltices... Mas, eu podia ver no olhar de cada um, um brilho estranho...

Eu não conseguia chorar...Tentei me convencer que seria essa minha mania de 'ser forte' para que o outro não se renda demais... Tentei me convencer que acredito realmente na vida após está vida, e que realmente creio que a morte não é o fim, e isso se refletia na minha atitude.Eu apenas tentava me convencer...


Estava era confusa... Estava em um tipo de choque... Estava a muitos dias com muito medo que esse dia chegasse. Porque de repente, me dei conta de que embora pensasse ser ainda aquela criança, o que há por fora não permitia que eu me enganasse.

Nos abraçamos como se fosse a última vez... Nos abraçamos como se fosse um de nossos reencontros para festejar nossa duradoura amizade... Nós abraçamos com força como que dizendo:- Estamos juntos nessa também!E nosso amigo, já havia abandonado aquele corpo há algumas horas... Só restava ali o que lhe servia de casa para esta estadia temporária. O que pertence ao mundo físico a ele é devolvido. Nós, que ainda estamos presos a esta casca, sentimos quando foi preciso sepultar o que restou daquele que era um em todos, pois somos todos em um. E esta nossa parte física fraca, corruptível sentiu a dor da perda. Deixamos seu corpo ali, naquela cova, debaixo de toda aquela terra. Tínhamos que retornar a nossas vidas. Ás vezes nós olhávamos para trás olhando mais uma vez, sem acreditar que ele estava ali. Ao longe, via sua sepultura coberta de flores e tentava me convencer que aquilo que estava enterrado ali era apenas o que restou dele.

Cada um retornou às suas vidas, depois de anunciarem o próximo reencontro.E o dia pra mim seguiu estranho... Eu ainda não sentia nada... Nada... Não conseguia chorar ou sofrer com o ocorrido... Mas, sentia medo... Ainda aquele medo de dias atrás...Estava sofrendo, mas não com a partida de nosso amigo... Sofria porque nunca tive tanta certeza de que todos nós iremos embora sem saber quando.

A morte de nosso amigo colocou-me novamente diante do medo da Morte. Ela quem tantas vezes desafiei. Ela que tantas vezes venci. Ela que tantas vezes busquei. Ela de quem mais fugi. Posso senti-la rindo de mim, pois pode ver em meu rosto a minha certeza de que não há para onde fugir.

A vida pareceu algo sem sentido, pois vivemos fazendo planos, traçando metas, ocupados demais nestas buscas, planejando o amanhã que nem sabemos se virá, sem poder usufruir as coisas simples da vida que são o que tornam uma Vida realmente completa.Tudo se perde quando a Vida acaba.

É preciso crer que somos mais que uma máquina complexa programada que simplesmente reage aos estímulos. Deve haver ou há algo que torna esta existência tão verdadeira que seja o real sentido... Deve haver algo que torne nossa existência um propósito para algo além e maior que tudo o que ambicionamos.

O mundo cheio de suas teorias, donos da Verdade, verdades absolutas generalizadas e sem piedade alguma quando ao 'sentir', está matando todos os dias todas as crenças que tornam possíveis vencer a dor da perda e a incerteza dos motivos de existir. Tudo isso derruba todas as pontes que tentamos construir para dar um sentido a Vida. O único fato que parece certo e podemos crer sem sombras de dúvidas é que existe um amanhã, mesmo que ainda não tenha chego.

Os impiedosos preferem propagar suas crenças de que a morte é o fim de tudo, para contaminar todos com sua crença de que a vida é uma maldição sem sentido que serve apenas para nosso tormento enquanto aqui existirmos. Tentam desmascarar nossa capacidade de sentir e produzir os mais nobres sentimentos pela própria incapacidade de ver sentido em algo...Por serem capazes de crer apenas no que podem tocar, ver com os próprios olhos, e não dão conta de que com isso criam também a descrença no abraço, no outro, no que o outro é capaz por nós.

Hoje o fel na minha boca tinha vários teores e intensidades... Engoli um a um e senti tão amargo... Hoje pude me vestir de tantas crenças e descrenças... Hoje, vi meu mundo ruir e enxergar apenas um imenso e enorme nada! Hoje, considerei o viver a coisa mais imbecil a se fazer!Hoje pude saber com exatidão o que é não crer em nada...

Mas mesmo assim, como um broto que luta com a terra para contemplar a luz do Sol, senti uma fagulha acesa lá no mais profundo do meu ser. Pois, embora tudo isso tenha se passado dentro de mim, há algo que insiste em existir e é forte.


Apesar de tudo isso, aqui dentro existe algo que me diz que vale à pena crer... É como um pequeno milagre que acontece... É como a gota que o orvalho forma... É isso o suficiente para seguir acreditando, pois existe, independe se eu acredite ou não.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Aprendendo com os Animais

Imagem de Junior Shimada - Jujuba

"Não vou reproduzir nenhuma imagem chocante aqui pois é madrugada de sábado e não sei em que situação você que está on line se encontra então, vou usar esta aqui para dizer algumas palavras que surgiram quando me deparei com algumas imagens chocantes...

Meu irmão alugou a casa que tenho aqui. Por isso, trouxe com ele sua cachorra, a Jujuba. Era complicado nos aproximarmos dela, principalmente quando está perto do meu irmão. Ela é um bom cão de guarda e super protetora. Mas, aos fins de semana meu irmão precisa se ausentar de casa. Apesar de deixar tudo o que ela precisa a disposição, sei que ela gosta de brincar, sempre dá uns passeios pela rua e passa todo o tempo com uma bola de tênis esperando a oportunidade de pedir que meu irmão jogue pra ela ir buscar. 

Esperei meu irmão sair e depois de constatar por cima do muro que ela não precisava de nada, deixei ela quase o dia todo me olhando através da brecha do portão. Ela rosnava, ameaçava atacar porque estava guardando a casa. Tentava aproximar a mão pra ela cheirar mas ela não se rendia.  Precisava que ela cheirasse minha pele para perceber através do olfato que eu não estava mal intencionada. Durante o mesmo período, fiz com que ela percebesse minha presença e ela respondia com latidos que deixavam claro que eu não era bem vinda. Observei ela todo o tempo, analisei seu comportamento para saber como poderia conquistá-la.

Hoje, precisava entrar lá para trocar a água. Pensei nos métodos que desenvolvi na infância, como envolver o braço com uma toalha e levar um petisco. Mas, queria comprovar através do comportamento duas coisas: que a mentalidade dos animais é igual a de uma criança de até 5 anos, e que eu realmente compreendo o comportamento de um animal.

Cheguei no portão e a chamei. Ela olhou pela brecha do portão rosnando. Falei com ela como se ela fosse uma criança com medo: - Olha, vou trocar a sua água e você vai deixar, tá? Já volto!

Entrei com um jarro de água e um pãozinho (cães gostam de pão). Abri o portão e ela latiu muito mas, percebendo que eu não recuava, ela quem recuou. Eu continuei entrando normalmente e estendi o pão para que ela pegasse. Ela rosnou, mostrou os dentes mas, percebeu que eu não me sentia intimidada então, correu para um canto. Com a certeza de que ela sentia medo, peguei a vassoura e fui varrer o quintal: ela rasgou o saco de carvão e espalhou tudo e pegou o vaso com a roseira e deixou vazio despedaçando toda a planta. Enquanto varria, perguntava se ela estava estressada. Ela me observava o tempo todo. Arrumei a cama dela e não demonstrei nenhum tipo de insegurança quanto a ela. Então, encontrei a bolinha. Me aproximei e ainda falando como quem fala com uma criança, perguntei se ela queria brincar. Ela não se movia. Então, comecei a bater a bolinha no chão explicando pra ela que eu sabia brincar. As orelhas dela se ergueram. Ela reagia conforme ia sentindo confiança, assim como as crianças.

A bolinha parecia ser a coisa mais importante pra ela depois do meu irmão. Se eu conseguisse fazer ela brincar comigo, conseguiria sua confiança. Fiquei um bom tempo brincando e falando diante dela até que ela ameaçou ir atrás da bolinha. Perguntei se ela queria brincar e a inseri na brincadeira. Umas 4 vezes ela não conseguia segurar a bolinha, embora tentasse. Cães são bons pegadores então, percebi que ela ainda estava insegura comigo. Continuei conversando com ela e passei a jogar a bolinha pra longe. Ela correu, pegou sem errar e voltou. Pronto! Ela passou a pegar a bolinha e oferecer para que eu jogasse. Depois de tanto buscar, ela já não deixava nos meus pés, segurava com a boca e pulava em mim como que querendo abraço e demonstrando intimidade. Brinquei bastante com ela. Mandei ela tomar um pouco de água e ela foi como que entendendo. Mandei pegar a bolinha e trazer e ela foi e pegou. Quando sai do quintal, ela queria ir junto. Mais tarde, peguei a guia e mostrei a ela: que festa! 

Precisava me certificar que minhas observações estavam corretas. Ela já havia demonstrado que iria se comportar do mesmo modo que faz com meu irmão: não iria deixar mais ninguém se aproximar. Então, conversei com o Rubens, expliquei umas coisas e pedi que ele entrasse comigo. Jujuba rosnou mas eu dizia: - Não, amor! É nosso amigo! Ele vai brincar de bolinha.

Peguei a bolinha e ela a seguia com os olhos. Me movimentei lentamente para que ela observasse eu entregando a bola na mão do Rubens e tocando a mão dele e disse: - Olha, o Rubens vai jogar pra você! Rubens não precisou do mesmo tempo que eu para ganhar a confiança dela, tanto é que fiz o mesmo com a guia, entregando a ele. Foi Rubens quem a conduziu pela rua.

Tudo isso foi para poder dizer que seria bom que todo ser humano interagisse com animais . Não para humaniza-los mas, para que eles ajudem a despertar ainda mais a humanidade em nós. Antes de querer ser aprovado e aceito pelas pessoas de sua espécie, aprenda mais sobre você mesmo com o auxílio de um animal.

Se um levantamento fosse feito com cada mãe que abandonou ou jogou no lixo um filho, iríamos saber que essas mulheres já abandonaram, ameaçaram abandonar ou maltrataram um animal.Uma pessoa que não consegue ver a si mesmo - assim como é - nos olhos de um animal, ainda não se encontrou. Nos animais, não temos que enxergar o filho que não temos ou a companhia que nos falta mas, a nós mesmos. Pois, quando eles nos olham, não enxergam outro animal da mesma espécie... Pelo modo que nos recebem e reagem a nós, parece que nos enxergam como se fossemos deuses descendo no mundo deles.

O mundo dos homens está a cada dia pior e mais louco. E muitas pessoas possuem animais em casa. Conforme eu, Rubens e Jujuba íamos passeando pelo quarteirão, todas as casas por onde passamos haviam um cão respondendo a nossa presença. Se o mundo piora a cada dia, as pessoas estão olhando para seus animais do modo errado. Não são seres inferiores. Não são algo sem sentido, sem função que só serve como adorno para o quintal ou como fuga para a solidão. É um ser vivo como você, com uma função neste mundo como você. Estando na sua casa, é ele que poderá te auxiliar a ser um humano melhor. E se você aprender a enxergá-lo deste modo, ele não irá parar por ai: será capaz de dar a própria vida para defender a sua.

Não sabe como fazer? Observe o animal que você tem em casa!" - Shimada Coelho - 09/02/2014

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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Desassociando Educação de Boas Maneiras‏





Da cozinha, ouço o som da TV ligada no canal de esportes. O assunto é uma invasão de torcedores tentando agredir jogadores por causa do resultado de um jogo. Enquanto ouço, vejo as atualizações no perfil da rede social e me deparo com um pequeno lembrete: "Quando enviar seu filho para a escola, mande com ele a educação!".  Me deparo com um comentário que reflete todo baixo nível intelectual de quem comenta: "Ué, na escola não é o lugar de receber educação?".

É preciso desassociar: Educação escolar/acadêmica não é Boas Maneiras. O significado real da palavra 'educação' é: "Conhecimento e prática dos usos da gente fina.Instrução, polidez, cortesia.". Mas, como 'ensinar' corresponde à 'instruir',  a palavra passou a ser usada para determinar a instrução recebida nas instituições de ensino. O verdadeiro significado se perdeu tanto que, hoje em dia, podemos ver pessoas academicamente bem instruídas mas, nada polidas, corteses ou com bons modos. Educação (instrução pedagógica) se recebe sim nas escolas e universidades. Boas Maneiras se recebe em casa.

O Governo Federal deu algo a massa que cessou a justificativa de 'falta de oportunidade'. Agora, quem quer melhorar de vida pode estudar e consequentemente conseguir melhor colocação profissional. O resultado é que agora existe uma nova classe média. À ela foi disponibilizado oportunidade de ter uma vida melhor mas, não foi dado a ela o mais essencial que determina alguém realmente instruído e civilizado: Boas Maneiras. Como hoje em dia o mínimo gesto ou palavra pode ser considerado racismo ou preconceito, o que era antes uma minoria precisou aprender a conviver com a maioria que agora, pode ter os mesmos recursos que antes só estavam disponíveis para a antiga classe média que hoje, deve ter sido reclassificada como classe média alta. Nomes e rótulos à parte, a maioria irá se sobressair pois, é ela quem possuí um espírito de sobrevivência mais intenso. Muitos dos que foram criados dentro das normas das Boas Maneiras, se renderam aos novos padrões da sociedade que confundiu inclusão com igualdade em um mundo onde ninguém é igual a ninguém.

As pessoas estão se comportando tão mal fora de casa, que imagino como devem se comportar na própria casa. Acredite-me: sem Boas Maneiras você não tem como estar certo em alguma coisa... Sem modos, você perde a razão, perde o senso de limites e de ridículo. 

Invadir vestiário de estádio, danificar vagão do Metrô, colocar fogo em ônibus, não conservar patrimônios públicos com a desculpa que 'está pagando' só reflete total falta de modos. E uma pessoa sem modos sempre tem a oportunidade de revelar seu grau de ignorância. Desrespeitar autoridades e espaços públicos com a justificativa que paga por tudo isso prova o nível de bons modos. Criou-se uma falsa ideia de que, quem paga pode qualquer coisa, porque só quem paga pode ter o melhor e uma coisa nada tem a ver com a outra. Discutir aos berros utilizando palavras chulas e soltando fogos pelas ventas está sendo entendido como valentia, determinação, atitude e não: tudo isso só revela a completa falta de modos. Já vi e já comprovei: pessoas em discussão que mantém o equilíbrio no tom de voz conseguem despertar no outro mais ira do que se reagisse no mesmo nível. Manter o equilíbrio intimida muito mais do que se alterar e esbravejar feito um cão raivoso.

E a falta de educação, isto é, a falta de Boas Maneiras, ganhou uma lista extensa de desculpas esfarrapadas para continuar crescente entre nós: não se dá mais preferência para mulheres e idosos passar à frente porque compreendem como 'igualdade' dar a todos o mesmo tratamento que se recebe. Gritar e responder professores e diretores passou a ser um gesto de inconformismo, imposição de respeito e protesto quando na verdade é apenas falta de modos mesmo.  Aliás, ninguém que não saiba respeitar tem o direito de exigir respeito... Ser moderno e antenado é uma coisa... Ser educado é outra!

Após as refeições - ao sair da mesa - você coloca a cadeira no lugar? Você pega seu prato e o coloca na pia ou ajuda a por e tirar a mesa? Você coloca tudo o que pegou no lugar que estava? Você oferece ajuda nas tarefas seja em casa, na escola ou no trabalho? Você se limita a usar apenas seus objetos pessoais? Você respeita o espaço e os objetos dos outros? Você bate na porta antes de entrar? Você pede licença? Você pede desculpa apenas com um esbarrão leve mesmo que o outro seja um desconhecido? Você limpa os pés no capacho da entrada ou tira os sapatos quando entra numa casa? Você leva a mão à frente da boca quando tosse ou espirra? Você mastiga de boca fechada? Você não bate os talheres no prato enquanto come? Á mesa, você arrota discretamente? Você tem consciência que há um modo de sentar adequado em lugares públicos, na casa dos outros ou quando se recebe visitas?  Estas são apenas algumas das muitas atitudes de alguém educado. Mesmo com pressa, os bons modos sempre estarão ali pois, sempre há tempo para ser educado. Os bons modos refletem muito mais que alguém civilizado... Reflete um universo interior, caráter, sensatez...

Então, quando você ocupa o lugar ou a vaga de idosos e deficientes, quando você fura a fila, quando você joga lixo em vias públicas, quando você fala berrando nas ruas como se estivesse com uma visita na sala de sua casa, quando você se veste parecendo que faltou pano para fabricar sua roupa, quando você deprecia o outro, quando você desisti de levar a carne quando chegou já na boca do caixa e a deixa jogada ali do lado, quando você acredita que falar alto é impor respeito, quando pensa que falar uma lista de palavras chulas mete medo, quando você tira algo de alguém, quando você invade espaço alheio, quando você destrói patrimônio público que é de uso de todos, quando você ouve som no carro ou em casa tão alto que pode ser ouvido no bairro inteiro, é só uma pequena amostra de quanta falta de educação/modos pode existir em uma única pessoa. Quando uma pessoa não tem modos, nem a rede social pode esconder: eles estão entre os atuais críticos sabidos de tudo engolindo inteiro - e sem mastigar - apenas informação oferecida como fast food vencido e nenhum conhecimento de fato.

Você pode vestir roupas de grife, pode frequentar os melhores restaurantes, pode comprar um carro de luxo, pode se cobrir de jóias mas, sem Boas Maneiras, você será apenas mais um que se ilude, achando que ser algo melhor é algo que se veste. O modo como você fala, como você caminha, como você gesticula, seu tom de voz, as palavras que usa pode comprovar sua 'qualidade' e apontar se você possuí ou não bons modos. As Boas Maneiras é algo espontâneo devido ao hábito constante. A pessoa que a possuí será diferenciada, e por mais humilde que seja, transmitirá aquela sensação de que diante de você há um nobre. Sim! Já conheci pessoas analfabetas, com vida muito simples, pobre e extremamente educada refletindo elegância em todos os gestos da pessoa. 

Enquanto se discute a necessidade de tantas mudanças urgentes em nossa Sociedade, não consigo deixar de pensar que nenhuma delas trará soluções se o povo não desenvolver Boas Maneiras. Possuí-la consequentemente te transforma em um cidadão de Bem, em alguém confiável, agradável que todos querem por perto, alguém que não se transforma em cada lugar que está mas, se adapta preservando o que é de fato. Uma pessoa educada sempre terá outro nível e um nível bem superior.

Então, alguém pensará: "Muitas pessoas vem de uma vida sofrida, de uma atmosfera familiar pobre em todos os sentidos, criadas por pais problemáticos, sempre passando necessidade...". Perdoem-me mas, está é apenas mais uma desculpa. Conheço pessoas que passaram por tudo isso e coisas bem piores a estas e ainda assim conseguem desenvolver bons modos: eu sou uma delas. Nenhuma adversidade que passei na vida foi capaz de me moldar a ponto de roubar minha humanidade e minha civilidade para que hoje eu tenha justificativas para me comportar como se eu fosse um bicho recém saído do meio do mato. 

E ai chegamos ao ponto crucial: a seleção natural! Quem nasce predisposto ao Bem, não irá reproduzir o Mal mas, aprenderá com ele a necessidade de ir além e ser cada vez melhor, não para os outros mas, primeiro pra si mesmo. 

Não são as adversidades da vida que geram uma pessoa má... É o que ela carrega dentro de si. Uma pessoa boa vence o Mal com bem! Uma pessoa naturalmente boa não é vencida pelo Mal mas, o vence. E pode observar: está pessoa é extremamente bem educada mesmo que não tenha nascido em 'berço de ouro'!

Não se iluda com a ideia de que o que você possuí, o que você veste, o que você compra, onde você frequenta te torna uma pessoa de nível e dentro dos padrões de qualidade... É sua postura diante de si mesmo e dos outros que determina isso!




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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Os Membros do Corpo da Besta


A Corrupção é uma Casa da Luz Vermelha e quem ali entra torna-se uma prostituta sem clientes. Caráter, honra, dignidade os abandonaram assim que passaram pelo batente da porta.Se possível for, venderão a mãe e alma ao Diabo quantas vezes for preciso. Trocarão favores independente de que lado estiverem. São zumbis que devorarão cérebros pois ali está a fonte do real poder! Não agem por mim, nem por você mas, por si mesmos! Ditadores, senhores feudais, impiedosos exploradores!

Eu dei de vontade própria uma procuração, concedendo a eles o direito de usufruir do meu poder. O voto é a atual Marca da Besta. Dar-te-ão várias opções, discursarão diversas propostas, e todos estarão nos bastidores disputando uma vaga para tirar proveito desta procuração. Enquanto eu precisar dar suor e sangue para proteger minha honestidade, minha dignidade e honra, para comer meu pão e manter meu abrigo, eles aproveitarão todas as oportunidades para construir seus impérios particulares. O maior ganho não será o nome perpetuado na História por seus grandes feitos: serão conhecidos por seus grandes desmandos nerosindromedianos. Ainda assim, chegarão à velhice recebendo bilhões de procurações... O que você faria por seu próximo? Acredite: eles não fariam por você o que fazem por si mesmos...

'É só escolher qual o botão apertar!'. E por quatro anos, seu destino estará nas mãos dos devoradores! Você só poderá vender, comprar, adquirir, se compactuar com a Grande Prostituta, que se coloca nos lugares mais altos revelando toda sua pequenez. A Besta já deixou bem claro: o Inferno é aqui! Não espere um abismo de fogo ardente... Ele será repleto de todos os 8, 9, mil pecados capitais! E todos eles resultam em seus piores lamentos! Nada será mais doloroso e penoso do que suas dores internas!

Dirão com a boca cheia - de onde escorre seu pior veneno - sobre seus grandes feitos em prol à plebe, e ninguém perceberá que nada mais é que a obrigação deles... Mas, escravos só conseguem olhar para o chão devido ao peso do fardo... Cavalos possuem antolhos; colocados por eles! Diga que és dono de seus passos e de seu destino! O caminho que trilhas é exatamente aquele que eles determinam! Agem como semi deuses mas, os deuses do passado ainda eram melhor intencionados: não há Tempo que apague os rastros daqueles que há muito não estão mais entre nós! 

As prostitutas congressistas destroem monumentos que foram erguidos em nome da perpetuação de uma civilização! O que esperar de uma sub espécie que, saindo das cavernas, ousou dar um salto na evolução - sem evoluir - e buscou pelo poder e domínio?

Predadores de uma nação! Carrascos disfarçados! Transformando uma nação em Holocausto! Transformando uma nação poderosa em escravos submissos! 

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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A Real Grandeza Habita no que é Singelo



Sempre disseram que tenho sérios problemas com hierarquias... Eu defendo minhas escolhas e meu ponto de vista e nunca me importo qual seja o suposto nível do outro.  Claro que não me esqueço da minha educação mas, uma coleção de diplomas numa parede ou no fundo de uma gaveta nunca vai determinar pra mim o caráter da outra pessoa. Não vai determinar que eu nunca esteja certa em algo e que não sou apta de tirar minhas próprias conclusões. Principalmente depois de vermos por tantas vezes que o mau caratismo independe de idade, de classe social, de profissão, de grau de intelectualidade, de raça, de credo e cultura e de formação superior. Quando respeito alguém, não é pela formação da pessoa mas, pelo caráter que revela através - não de suas palavras - mas, de suas atitudes.

Quando alguém se apresenta diante de mim fazendo auto propaganda de seus 'grandes' feitos que são apenas resultado de seus esforços para alcançar umas ambições pessoais, meus olhos caem numa reação de cansaço em ver mais um... Aos meus olhos, é só isso que este tipo de pessoa representa: só mais um. Assim como aos olhos dos mesmos, eu, cidadã comum, sem sal e sem açúcar, sem formação acadêmica ou profissional sou vista.

Considero desinteressante gente que se apresenta declarando um monte de letras e títulos antes do nome. Gente que nunca é ela mesma: ela é a profissão dela,  é a síndrome ou o transtorno dela,  é a crença dela, é o partido político que segue, é o estilo musical da banda favorita, é o que está na moda, é um rótulo andante. É uma eterna Miss Universo desfilando com sua faixa nas passarelas imaginárias de suas vidas...

Essa gente fala como se fosse inglês - com um ovo na garganta - com aquele ar de superioridade, com aquele olhar de cima, com aquela falsa segurança baseada nos papeis emolduradas e pendurados em suas paredes. Essa gente é tão desinteressante que me dá tédio, me cansa, não me surpreende, não abre meus sentidos, me mantém em um estado vegetativo de puro marasmo.  Essa gente, se auto proclama bem sucedida e por isso, melhor que eu ou você, reles mortal miserável que tem que suar sangue a cada um real conquistado! Essa gente diante de mim é só isso: gente!

Mas, nem tudo está perdido neste cenário do mundo tão variado e cheio de variantes... A Vida que pulsa dentro de mim fica eufórica diante de um ser humano. Principalmente aqueles despidos que revelam suas almas tão radiantes, luminosas, brilhantes!

Seres humanos costumam ter um rosto que lembra um sol! Não possuem limites para rir, para achar graça ou para se divertir. Quando se apresentam dizem seus nomes, dizem quem são e não o que fazem! Não te olham de cima e nem debaixo: estão sempre no mesmo nível que você, não importa quem você seja ou como você vive. Possuem uma educação - boas maneiras - que sua elegância não está nas roupas que vestem: está no seu modo de falar, de se mover, de se portar. Elas só matam de tédio alguém que seja vazio ou invejoso. Porque nunca são a mesma pessoa todo dia, tamanha sua capacidade de sempre surpreender. Sempre que chegam é como se fosse a primeira vez. Quando partem, sempre ouvirão um 'fica mais um pouco'. Do mesmo modo que encantam, se encantam com tudo: com uma pequena flor, com o besouro, com o passarinho que passa, com o frescor ou a força do vento, com coisas que a maioria nem dá atenção. É como se o mundo estivesse dentro delas e não elas dentro do mundo.Elas não te cansam! Não te levam pra baixo: te levam pra cima, cada vez mais alto e elas de um modo estranho, se mantém ainda no mesmo nível que você. É... Porque elas não precisam de tantas máscaras sociais para se sentir no cume da montanha: elas sempre estão lá, sabem descer e subir quantas vezes for necessário. Quando argumentam, não declaram uma infinita lista de títulos, atribuições e feitos: se baseiam nas coisas que já foram vividas, experimentadas e nunca foram um problema, apenas lições que aprenderam muito bem. Justamente essas pessoas - tão humanas - nunca estarão sem argumento. E nem precisam apelar para nada que a realidade  declara supostamente como superioridade ou destaque ou ainda 'melhor'.

Então, não é que eu tenha problemas com hierarquias... Apenas estou consciente que minha raça não é asiática, é humana. Apenas estou consciente de que como seres humanos, todos possuem as mesmas capacidades e cada um pode ser grande naquilo que escolhe desenvolver. Consciente de que todas as conquistas refletem apenas uma dedicação e perseverança quanto aquilo que se desejava alcançar e não é algo que se veste e torna alguém melhor ou mais apto a alguma coisa.

Um dia, tive o prazer de conhecer um grande médico, diretor de um grande hospital aqui da cidade. Sua humildade e empatia diante do sofrimento humano anularam suas atribuições profissionais e vi apenas um ser humano de fato. Igual a ele, conheci uma senhorinha miúda, analfabeta, que conhecia tudo sobre ervas e tinha muito mais sabedoria que qualquer mestrado em Filosofia um dia poderá alcançar. Do mesmo modo, um advogado conhecido na região se revelou um verdadeiro canastrão, diante de uma mulher simples e sem formação alguma que apenas queria o que era seu por direito.

Quando minha cachorra anda pelo corredor - tão grande, com sua força aparecendo nos músculos e seu olhar de meter medo - e encontra o pequeno gatinho peralta, ela o cheira, abana o rabo, e parece frustrada em não conseguir brincar por causa de seu tamanho. Ela se joga ao chão, de barriga para cima, e imita o gato tomando sol. Se lambe do mesmo modo que ele como que dizendo: somos iguais com nossas diferenças e te respeito. Em momento algum ela usa sua predominância entre todos os animais da casa, nem usa sua força para maltratar, expulsar ou machucar nenhum deles. Ainda se sente na obrigação de proteger seja lá quem viva na casa.

E nós - uns humanos e outros apenas gente - perdidos ainda na incapacidade de assumir a própria identidade, vamos nos achando grande coisa por causa de um carro, um diploma, uma posição na sociedade, uma religião ou um monte de notas de dinheiro, precisando ainda de tudo isso para se auto afirmar alguma coisa quando, na verdade, vai anulando o que realmente é.

O que lhe parece grande, pode encher´te os olhos mas, nem sempre o coração.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Inteira em um Mundo Dividido



Se você for educado, gentil e pacífico e expressar sua opinião diante de um fanático obcecado - não só por suas convicções mas também por ideias implantadas por  condicionamento e frustração - ele reagirá de modo extremamente agressivo, sem nenhum sinal de respeito ao fato de que você não é um inimigo mas, apenas pensa diferente.

Hoje em dia, não há mais lugar para meio termo pois, consideram isso como indecisão, falta de opinião e estar em cima do muro. Você assisti impotente dois lados se digladiarem e se tentar pacificar as coisas, se tornará alvo de ambos. No mundo não há mais lugar para ações pacíficas e as mensagens de Amor. Pois, é com o ódio em sua forma mais bruta que ideias estão sendo defendidas.

Se você tiver um amigo com determinada posição e do outro lado tiver um amigo com opinião aversa, porque é obrigado a escolher? Não te obrigam a escolher qual o lado ficar mas, com qual amigo continuará. Só pode haver dois lados pois, no mundo não caberá mais um terceiro ou quarto embora haja tantos grupos e ideias distintas. UM quadrado tem quatro lados, um retângulo tem três mas no Reino dos Homens há apenas dois como um círculo: o de dentro e o de fora. E nem se dão conta eles que em círculo também andam...

A fogueira santa está acesa: não para direita ou para a esquerda. Não para negros ou brancos. Não para héteros ou homoafetivos. Não para o sul ou para o nordeste. Não para ocidentais e orientais. O fogo arde e as enxadas e foices estão erguidas pra você que pensa que ninguém está completamente errado e nem totalmente certo. Pra você que ainda acredita que nada pode ser generalizado e tudo tem o mesmo fundamento de impulso. Pra você que acredita que uma boa conversa resolve tudo. Pra você que aceita as diferenças. Pra você que não esquece que antes de tudo o que se é neste mundo, antes de rótulos e classificações, você é apenas um ser humano mortal, com vida curta, que faria qualquer coisa para aproveitar melhor a vida se isso dependesse de estar de um lado ou de outro.

De repente, você pode não saber mais em que mundo está. Nem para onde foram as diversidades de crença, raça, cor, filosofias, culturas e tradições. A turba grita que todos estão errados: esta é a única frase ouvida nos clamores. De repente, você se dedicou tanto para crescer, seguir, vencer para se tornar inteiro e melhor e o mundo não é mais o mesmo como se tudo o que você aprendeu com a própria vida fosse apenas um intercâmbio em outro planeta. De repente, já não faz mais sentido se tornar melhor mas, de um lado ou de outro. Te querem mesmo que partido, dividido.

Um muro como o de Berlim ergue-se lentamente entre os homens e agora você vai ter que escolher de que lado ficar... E de todos os lados tudo se deteriora, tudo vira um cenário de guerra, tudo caminha para extinção enquanto Egos inflamados estão dedicados a estar certo...

E ali no meio, só está você... Sabendo que ninguém está certo apenas por constatar que  seus gritos estão destruindo em vez de construir, separando em vez de unir.


Os fatos não correspondem mais aos atos.

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domingo, 24 de novembro de 2013

A Lição da Tinta


Apesar do meu pai ser um homem simples, sempre o vi como alguém grande. É auto didata mas, assim como eu, só aprende sozinho aquilo em que tenha muito interesse. O considero sábio pois, pra lidar comigo, nunca precisou levantar o tom de voz, muito menos usar algum tipo de corretivo. Ele conseguia falar apenas com o olhar e ganhou meu respeito quando eu era ainda muito criança. Até o momento, ele é a única pessoa que conseguiria me fazer calar a boca - se mandasse - e a única que consegue me fazer abaixar a cabeça, não por medo mas, pela sabedoria em suas palavras. 

Talvez eu tenha herdado dele a mania de contar histórias. Contar todo mundo sabe contar uma mas, quando contamos histórias há sempre uma lição nas entrelinhas. Ele sempre contou tantas histórias e também sempre usou alguma situação para ensinar. 

Certa vez, ele pintava as paredes da casa onde nasci. E como sempre, em tudo o que ele estava fazendo eu ficava ali, ao lado, observando tudo. Ele tentou me convencer de brincar, tentou chamar a minha atenção para outras coisas mas eu ficava ali, fazendo muitas perguntas e observando, interessada no que ele estava fazendo.

Então, ele pegou uma pequena lata, um pincel estreito e me ofereceu dizendo:
- Você quer pintar também? Sei que você está doida pra pintar a parede. Vou deixar mas, para merecer esta tarefa você vai ter que aprender uma lição. Esta é toda a tinta que vou te dar. Quando acabar não vou dar mais. Você precisa pintar boa parte da parede apenas com isto.

Na verdade, não prestei muito atenção no que ele dizia. Meu foco estava na lata de tinta e no pincel. Eu só queria pintar mas, ouvi o que ele disse e de alguma forma ficou registrado na mente.

Porque comecei a pintar e após sentir o pincel em contato com a tinta e como se espalhava na parede, comecei a pensar em um modo de pintar uma grande área da parede só com aquela quantidade que tinha. Não pensava na lição. Pensava que estava gostando de fazer aquilo e se eu fosse esperta, poderia ficar muito tempo pintando.

Observei o que eu julgava ser uma grande área e determinei até onde deveria conseguir pintar. E apesar de muito pequena, procurei ser cautelosa em não desperdiçar. Logo percebi que desperdiçaria muita tinta se sujasse o chão. Então, molhava apenas as pontas do pincel e pintava com aquela quantidade até que não pudesse continuar. Só então, voltava a molhar o pincel.

Meu pai dizia:
- Deste jeito vai demorar muito.

Eu respondia:
- Não tem problema, estou gostando de pintar.

Lembro perfeitamente que enquanto pintava não pensava em nada. Meu único foco era conseguir pintar e da melhor forma possível. Quase não deu mas, com aquele pouquinho de tinta, consegui pintar toda a área que havia pretendido.

Quando terminei, meu pai não perguntou em momento algum se eu havia aprendido a lição. Os anos passaram e eu cresci. A tinta passou a ser uma ferramenta presente na minha vida. Com ela faço Arte. E uma coisa que sempre estranhei é como minhas tintas sempre renderam muito. Faço vários trabalhos e elas duram muito tempo, rendendo para muitos outros. Então, percebi que nas outras atividades, o mesmo acontecia. Nestas horas, lembrava da lição da tinta mas, não parava pra pensar nela.

Dias atrás, eu e minha família nos reunimos para pintar a fachada da casa. Eu havia inventado a tarefa e ninguém estava muito afim de realizá-la. Lembrei que gostaria de fazer isso sozinha porque eu conseguiria fazer a tinta render para pintar toda a casa. E de fato, terminei a parte da frente da casa e havia gasto apenas um palmo de tinta.

Aconteceu que enquanto eu estava focada em fazer a tinta render para pintar a área pretendida, os outros estavam preocupados em terminar logo. Consequentemente a tinta começou a desaparecer da lata. Havia tinta derramada pelo chão, havia guerra de tinta, havia desperdício e a lata não deu para pintar a parte detrás da casa.

Foi quando a lição da tinta fez sentido embora até então eu aplicasse mesmo sem compreender e disse a minha família:

- Quando eu era criança meu pai me ensinou a Lição da Tinta. Eu deveria pintar uma grande área de parede com um pouquinho de tinta que ele colocou em uma lata. Até hoje quando vou usar algo e sei que aquilo custou meu suor, lembro da latinha de tinta. Imagino quantos dias trabalhados foram precisos para comprarmos esta lata de tinta. E, apesar de ser o suficiente para realizarmos esta tarefa, não deu porque foi desperdiçada. Vocês estavam com tanta pressa de acabar logo que ainda deixaram tudo sujo e mau pintado.Quando vamos fazer algo, é preciso pensar em todo esforço para realizar esse algo. É preciso pensar que, feito de qualquer maneira haverá grande perda mas, se realizado com dedicação só haverá ganhos.

Agora é sua vez de aprender com a tinta. Não precisa pintar uma parede. Basta lembrar o quanto te custou ter o que tem e quanto mais pode te custar se não usar direito. O que você tem de material tem prazo de validade e tempo para uso. Custou alguma coisa para você possuir mas, a lição não se trata de ter objetos. A lição da tinta fala da água e da energia elétrica que você usa, do arroz e feijão, da feira comprada que se deteriora enquanto tantos ainda passam fome... Em tudo o que for realizar, lembre-se da lição da tinta! Quando for comprar e preparar comida, quando for comprar e usar roupas e sapatos, quando guardar se poderia doar, quando arrancar a folha do caderno, quando deixar um livro jogado, em tudo!

Depois desta lição, automaticamente uma outra virá; Todos nós nascemos capacitados para determinadas funções e realizações neste mundo. Basta saber usar direito o que você tem em suas mãos. Nós nascemos cada um com uma ferramenta que o outro não tem e com ela devemos cumprir nossa missão

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A Lição da Tinta de Shimada Coelho é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Verdade de Cada Um

Quando vejo muito 'separatismo' e esta agressividade com que muitos tem defendido suas ideias e crenças, abro minha lista de amigos. Nela há pessoas de tudo que é cor, filosofia, raça, crença e ideologia. Há até um e outro que são integrantes das mais repudiadas: Iluminatis e Satanistas.

Não gosto de religião e não cabe expor meus motivos por serem completamente pessoais e não acrescentaria em nada na vida de ninguém. Mas, respeito profundamente quem tem uma. Provavelmente o mundo poderia estar bem pior sem religião visto que, ela parece ser a única ponte sólida que ainda mantém o indivíduo no caminho do Bem, independente de quem sejam suas lideranças. A Fé é tão pessoal quanto minha aversão.



Não discuto e não discordo da opinião ou convicção de meus amigos. Ás vezes, entro com eles em reflexão sim, expondo meu pensamento baseado na parte de sua ideia que apoio porque não generalizo nada. Não sei quem tem a Verdade Absoluta. Sei que um pode aprender muito com o outro pois, cada um tem a própria perspectiva sobre um mesmo tema. Sei que estando o outro em um caminho diferente, ele pode me favorecer a ver algo que já tinha visto mas, com ele posso ver de outro ângulo. É então que você sabe que a Verdade se faz presente: quando a discussão eleva para crescimento e não se torna uma disputa de Egos inflamados.

E pode alguém considerar que sou alguém indeciso... Alguém que pula de galho em galho... Alguém em cima do muro... Alguém confuso que não sabe em que acreditar. A opinião de cada um e suas conclusões é como a verdade de cada um... Sei que todo mundo a possuí mas, ela deixa de ser Verdade quando passam a impô-la  e apresentá-la como absoluta. Deixa de ser Verdade quando tentam torná-la única. Deixa de ser Verdade quando alguém diz estar de posse dela. Deixa de ser Verdade quando ela contradiz as ações.

Quando me familiarizo ou me identifico com algo da crença do outro não me torno seguidora de sua crença. E não irei torcer o nariz  com uma identificação só porque provém de uma crença que eu tenha alguma aversão. 

Cada um tem seus motivos para crer no que crê. Mas, quando alguém dissemina a própria crença eu observo se ela é semeada por interesse próprio e causa própria ou se a crença  traz a Luz da Consciência de que seja um Bem que beneficia a todos sem exceção.

A Verdade um dia foi lançada à Terra e como um meteoro quebrou-se em muitos pedaços que caíram em várias partes deste mundo. Ninguém nunca a terá por inteiro enquanto cada um for indivíduo e não um Todo. 

A Verdade é tão poderosa que nunca precisa ser imposta e ninguém precisa ser convencido dela: sempre que se faz presente ela é bem recebida porque, as pessoas temem a dor da Verdade mas, só confiam naquilo que é verdadeiro. 

Se sua crença tem o peso e a benção da Verdade, não é preciso dedicar-se tanto e nem dispensar tanta energia: em um simples gesto seu ela é percebida e buscada. Não se leva a Verdade em uma bandeja de prata ou ouro a ninguém: quem a deseja busca por ela.


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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O Que é Bom Dura Pouco?

Todos nós temos problemas do mesmo modo que todos nós estaremos sujeitos a vitórias. Assim é a Vida: uma constante montanha russa de oscilações que comprovam que tudo está em constante mutação e nada deve estar do mesmo jeito sempre. No Universo Físico a Lei da Física prevalece: para toda ação há uma reação. Por isso, oscilamos entre tristeza e alegria, dor e alívio, derrota e vitória.


O período em que duram essas fases depende de merecimento ou provação? Se você vive uma fase difícil pode considerá-la uma provação assim como uma fase de extrema satisfação classifica como merecimento. Nomeamos as coisas deste modo para criar nossas perspectivas. Mas, no fundo, tudo é apenas resultados de nossas escolhas. As fases boas são recompensas e as fases ruins aprendizado. Se prestarmos bem atenção, o que é ruim, o que é mal, varia conforme nossa perspectiva. Não quer dizer que seja mesmo ruim...

Não falo das atitudes de maldade que não deixam de ser também uma escolha de quem as pratica. Digo especificamente das fases da vida de cada um. Estas fases que nos dão oportunidade de vivenciar o que consideramos bom ou ruim, triste ou alegre desenvolvendo assim nossas experiências de vida.

Mas, afinal de contas, porque temos sempre a impressão de que o que é bom dura tão pouco e o que é ruim dura tempo demais a ponto de nos consumir? Usaremos como base para nossa reflexão o Tempo através do relógio. É comum vigiarmos o relógio quando desejamos que o tempo passe logo por estarmos em um momento que não nos causa satisfação mas, temos a obrigação de assumir um compromisso. Você costuma vigiar o relógio do mesmo modo quando está vivenciando um momento agradável?

Apesar da História e todas as Ciências relacionadas a ela datarem a existência da raça humana em milhares de anos, a raça humana em si é nova. Podemos comparar sua fase de existência a uma criança que acaba de aprender a andar. Somos então, seres ainda muito novos porque dependemos do Tempo e seus ciclos para evoluirmos e nos adaptarmos. Talvez seja essa precocidade que não nos permita ainda seguir os cursos naturais do Tempo. E portanto, talvez por isso tentamos dar saltos no Tempo para antecipar ou adiantar acontecimentos.

A duração de fases ruins ou boas ninguém pode determinar com lucidez. Porque não contamos estes períodos. Mas, temos sempre a impressão de que o que é ruim dura muito mais tempo que o que é bom porque os sentimentos envolvidos nas fases ruins são bem mais intensos. São mais intensos por causa da nossa postura diante das situações.

Na minha infância, os tapas eram usados para correção de modo consciente. Alguns pais inclusive, explicavam o porque seria aplicado o corretivo para que nunca fosse esquecido. Os tapas ou as surras eram aplicados quando era determinado o que era considerado errado. Apenas os discursos do porque era certo ou errado não eram suficientes então, aplicava-se o corretivo por causa de nossa estranha tendência de não esquecer aquilo que é ruim. A dor do corretivo firmava as palavras. Se não esquecesse a dor da surra, não esqueceria o porque da surra.

A Vida está o tempo todo nos ensinando algo, porque somos uma espécie ainda criança que precisa aprender. As fases que consideramos ruins são exatamente as lições que temos mais dificuldade em aprender. O sofrimento causado neste momento serve para não esquecermos a lição. Esta dificuldade está diretamente relacionada ao fato de nos sentirmos contrariados em nossa vontade. Como crianças que somos, nossa atenção está dispersa quando tudo está bem.

Talvez por isso, quando estamos em uma fase ruim, nos lembramos de tudo de ruim que já vivemos, sem nos darmos conta que o modo como fazemos isso nos afunda ainda mais no estado de sofrimento. É só neste momento que lembramos de tudo de bom que já vivemos. Não é a toa que criaram um ditado que diz que 'só damos valor a algo quando perdemos'. 

Nossa infantilidade é tamanha que passamos pelas fases ruins sentindo com intensidade sem a consciência de que passamos por uma lição que deve ser aprendida. Quando vivemos fases boas, a impressão é de que passa rápido demais pois tudo o que é bom nos distrai. Nos acomodamos com a satisfação mas, não significa que vivenciamos tudo com a mesma intensidade com que passamos por fases ruins.

É então que algumas situações que geram sofrimento tornam-se repetitivas. E esta tendência de despertarmos as lembranças de todas as outras coisas ruins está no cérebro. Nosso cérebro sempre busca em seu arquivo tudo o que estiver arquivado e for similar a atual situação pois, está sempre comparando tudo numa fração de segundos para que possa  determinar o próximo passo.

Fases ruins voltam a acontecer porque as lições não foram aprendidas e a Vida as traz de volta. Não foram aprendidas porque as mesmas escolhas sempre são feitas sem dar a chance para outras possibilidades e isto ocorre por vários motivos, um deles e nossa incapacidade de ceder, de abrir mão, de ser contrariado.

A dificuldade de sairmos de cabeça erguida das fases ruins reflete o quanto somos crianças. Tanto é que nas fases ruins dizemos que estamos em 'uma luta'. Lá no fundo, embora adultos, desejamos que alguém venha e resolva tudo por nós em um passe de mágica, assim como desejamos que o Tempo dê um salto para não passarmos por algo ruim. Tão crianças que somos, somos ainda tão dependentes do outro, não simplesmente por sermos seres criados para vivermos em bandos. Nos realizamos satisfazendo o outro e será do mesmo modo quando precisamos de algo que nos satisfaça e só virá  - na nossa perspectiva pessoal - do outro. Talvez por isso, passamos por um longo período de nossa vida ouvindo vez ou outra de alguém: "- Está na hora de crescer!".


Quem determinou que estas fases ruins devem ser vividas aos prantos, debruçados, abatidos e em total sofrimento? Por que não passar por tudo reagindo sim ao momento mas, na certeza de que tudo vai passar assim como tudo o que é bom também passou? Nossa certeza reflete nossa convicção. Nossa convicção difere de nossa opinião que sempre muda de uma coisa para outra mas, a convicção quando muda se aprimora. Portanto, se convictos estamos que vai passar, automaticamente passaremos de modo diferente do habitual. Nossa postura será outra. Nosso peito estará estufado pronto para enfrentar pois há a convicção que vai passar e tudo é apenas uma lição para se aprender.

Chega um momento que precisamos crescer assim como as crianças. Chega um momento que não será mais o pai ou a mãe que virá ao nosso socorro e irá satisfazer todas as nossas vontades. Chega um momento que somos nós e a Vida! É preciso ter coragem e enfrentar porque sua Vida, só você pode viver e o que há nela depende de suas escolhas: você é quem precisa agir!

Lembra como nosso pai ou nossa mãe enfrentava qualquer adversidade em prol dos filhos? Lembra o quanto a coragem deles despertava em nós uma ideia de que eles eram heróis? Ou dotados de super poderes? Lembra quantas vezes eles se encontraram sozinhos e ainda assim tinham que encontrar uma solução?

Agora é a sua vez!

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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Morres Várias Vezes ao Longo da Vida

As pessoas vão me perdendo aos poucos... Minha compreensão e tolerância possuem tanta dimensão que vou dando sinais de que cada pedaço de mim vai sumindo...

Meus males são a extrema fidelidade, a compreensão, a paciência, o perdão... Vou relevando, vou fingindo nada ver, vou fingindo nada sentir... Tudo para ter um pouquinho que seja da tão sonhada paz. 

Conheci um grande homem - daqueles que se vê só uma vez na vida - dizer: "Faça o bem! Você não ganha nada com isso mas, se fizer o mal, com certeza ainda receberá o troco!". E como ele estava certo!

Hoje em dia, a maioria das pessoas que te cercam ou serão sanguessugas ou usarão máscaras. Este mundo receberá bem poucas pessoas únicas, autênticas e raras...  Por isso, com a maioria você sempre irá ter algum tipo de decepção.

Dedicar-se tanto a alguém - seja da família ou um suposto amigo - não vale todo o seu esforço. Pois tudo o que é verdadeiro, é nato, é sincero, não exige força: é espontâneo!

Meu mal toda vida foi renunciar aos meus anseios - sabedora que sou capaz de contentar-me com tão pouco - para de alguma forma fazer o outro feliz, sem entender ao certo como isto funciona. Mas sei que muita dedicação, empenho e constante perdão pode de alguma forma contribuir. Não anulei-me... Não submeti... Apenas fiz escolhas. E sempre acreditei que valiam à pena...

Mas, todo mundo nasce pra ser o que é. Sua dedicação pela felicidade alheia não vai mudar ninguém! Ou a pessoa irá se aproveitar de sua generosidade ou vai mascarar o que sempre foi. Cada elogio ou incentivo direcionado a pessoa, será mais uma chance de crer que está mantendo sua má intenção bem oculta. Cada ato de gentileza ou reconhecimento deixará esta pessoa segura de que nunca será descoberto.

Ledo engano... Nenhum tipo de mentira - não importa a forma que tenha - fica oculta! Porque as pessoas que alimentam a própria vaidade são previsíveis... São camaleões que se misturam aos outros rejeitando a própria essência para ser aceito.. Para se enquadrar... Para se sentir melhor não importando o quanto isso vai afetar outra pessoa.

Quando se cria um laço com uma pessoa, passamos a estar profundamente conectados a ela. A empatia se desenvolverá a tal ponto que sentirá e, às vezes, até pensará o mesmo que o outro. Se engana que será só pra bem... Para mal também! Todo intento enganoso irá de alguma forma te afetar.

Por isso, esta pessoa que vos escreve irá morrer! Deixará de viver do mesmo modo por mais 30 anos! Deixará de crer em suas crenças e filosofias e se renderá.

Porque acredita que toda vez que procura fazer o seu melhor, faz um esforço pela felicidade alheia. Mas quando o outro transforma sua dedicação em uma manobra para ocultar o que não está certo, há vergonha de tamanha estupidez em crer no outro...

A gota d'água sempre cai... Ainda houve tolerância por muito tempo... E um dia tudo cansa! 

Acredite-me e digo com testemunhas para comprovar : você nunca encontrará alguém mais fiel! Todas as suas confissões, seus lamentos, seus desabafos, estarão guardados comigo e os levarei para o túmulo. Histórias e mais histórias confiadas a mim - e que renderiam-me boas crônicas - jamais serão conhecidas por minha boca ou por minhas mãos. 

Você jamais encontrará alguém mais sincero e tão cauteloso em dizer-te uma palavra. Também não encontrará ninguém capaz de ouvir-te de verdade. Toda verdade, toda sinceridade, toda compreensão possíveis foram oferecidas de bom grado.

E sabe o que é pior? Eu não minto e nunca soube mentir pois, antes de ser honesta com qualquer pessoa o fui para comigo mesma! Tamanha é esta honestidade - e sem de modo algum procurar vangloriar-me - que nenhuma poesia, nenhum texto, nenhuma crônica e nenhuma palavra redigida ou dita por mim foi inventada! Demorei longo tempo para perceber minha vocação em escrever... Outro tempo levou para descobrir que não sei inventar histórias...  Embora muito tenha ouvido 'volta pra Terra', a realidade sempre me foi muito preciosa! A verdade de cada um é como joia rara! E para estar certa do que dizia e da minha convicção, sempre basei-me na experimentação!

Todos os sentimentos e situações possíveis eu experimentei e é isto que me impede ignorar o sofrimento alheio ou responder um 'não sei'... Muitas vezes me debrucei e me dediquei ao outro com extremo interesse de realmente compreender o que sentia... Quantas horas foram dispensadas...

Hoje morro, implorando aos céus que não me ressuscite mais! Cansei de crer em qualquer coisa, ainda mais por estar tão descrente de mim mesma, pois sou humana... O que esperar do ser humano? Eu posso enxergar toda escória gerada de montes de carne ambulantes sem vontade própria que nunca sabem o que querem de fato...

Deixem-me partir e não se lembrem mais de mim! Pois tudo o que esperei em vida, não me servirá de nada depois de morta...