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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Trecho....Órfã


"A tristeza da constatação é profunda e doída. A bem verdade é que nunca tive família. Sou órfã que possui pai e mãe. Eu era naquela casa muito mais que uma estranha. Muito além de 'a diferente'. Era uma intrusa que dependia de favores. Condicionei-me a baixar a cabeça pra tudo e aceitar qualquer coisa calada pois, tinha um teto, uma cama, chuveiro e comida. Caso eu reclamasse do tratamento que recebia, 'tudo' isso seria jogado na minha cara!

Não é a toa que muitos enxergam no meu olhar a tristeza... Meus olhos foram a primeira parte de mim a ser ferida. Sem poder falar, eu só podia ouvir, ver e sentir. E me condicionei a isto também. Um dia, pela piedade do Deus misericordioso, quis Ele que eu pudesse ter a chance de criar minha própria família. Sem nunca ter recebido orientação, colo, apoio, carinho, incentivo, precisei aprender a desenvolver tudo isso para poder oferecer a uma família! Até aqui fiz o melhor que pude. Não sei se posso ir além de onde cheguei.

O que sei mesmo é que depois de tanto sofrimento e depois da graça de ter de fato uma família, eu ainda não pude começar do zero. Eu ainda não pude fazer meu caminho. Ainda não pude escrever minha própria história.

Agora, sinto que está tão tarde... Logo dará meia noite! Me roubaram até onde podiam. Me dilaceraram a alma várias vezes. Perdi energia, força resistindo e agora, não tenho mais forças pra seguir. E esta tristeza que agora me invade, vai levando o que me restou. Como dói a constatação... Em meio a tantos condicionamentos, fui condicionada a ser só porque sempre o fui.

Sei quem são meus pais e irmãos... Mas não sei quem ou como fui parida. Sei o que é a compaixão da mão estendida do amigo, do estranho, do próximo, mas os únicos laços de sangue que conheço são destes que nasceram de mim. São eles que me mantém ainda apegada a um sentido de vida sem sentido! Pois, cada vez que olho para eles, vejo uma parte de mim e compreendo o que é eternidade: viverei de alguma forma pra sempre! Mesmo sem grandes feitos, mesmo sem ter contribuído devidamente para o mundo, uma parte de mim continuará viva neles!

O pior do ser humano eu conheci em dois lugares cujo solo deveria ser sagrado: no seio da família e dentro de uma igreja! Que graça caiu sobre mim: pude construir uma família e bem melhor do que pensei ter um dia. Que dádiva inaudita a Terra ser apenas escabelo dos pés de Deus: Ele está em todo lugar, inclusive fora das igrejas!

Quando o terror noturno quer me assombrar, não temo pois, o mundo sempre foi total escuridão desde meus tempos de completa cegueira. Um dia, um par de olhos brilhou sobre mim aquela pouca luz me permitiu enxergar o encanto do mundo. Logo após, meu útero abrigou as centelhas de luz que me permitem enxergar ainda além. Antes disto, sentada ao pé da escada, tentando dormir no frio da madrugada, assistida pelo cão negro cujos olhos se mostravam vermelhos na escuridão, o futuro era apenas um vácuo negro.

Morri e revivi tantas vezes que perdi a conta: cada golpe era mortal. Quando a Vida enfim entregou-me um galardão, não sabia o que fazer com ele. Onde está o marco-zero para começar de novo?"" - Trecho

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