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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

As Palavras


O primeiro livro que conheci foi a Bíblia lá para meus cinco e seis anos! Não eram apenas as histórias fascinantes que prendiam minha atenção... Era (e ainda é) o amontuado de palavras bem cultas e formais. Uau! Aquilo é um deslumbre aos meus olhos! Mas não era (e nem é) o sentido das palavras, mas o que eu sentia com o som nas pronúncias de cada uma delas. E os nomes de pessoas então! "Quem teria um nome assim?" Mas o som do nome dava certa elegância. Passei muito tempo presa entre Reis e Crônicas. Aliás, procurava entender porque Crônicas se mais parecia uma árvore geneológica. Foi quando geneológica passou a ser pra mim ginecológica. Nada e tudo a ver...

O segundo livro que ganhei foi uma solicitação da escola: o dicionário Aurélio. O mesmo fascínio que o primeiro livro proporcionou aos meus olhos que se esparramavam junto a tantas palavras de sons tão musicais e agora com seus significados. Mas, como dizem os mestres de nossa língua Faraco & Moura: "as palavras não são apenas seus significados!" E eu passava horas debruçada na cama, lendo palavra por palavra! Encantada em descobrir que as letras do alfabeto tinham um espaço e significado. Que uma letra possuía uma história! E o significado das palavras ganharam novas interpretações e novo uso para mim, mas os sons de cada um era (e é) apenas de cada uma delas!

Certo dia, conheci uma lenda de um homem chamado Jack, o Estripador. "Ele abria o ventre de suas vítimas expondo suas entranhas.". Me deparei então com essa palavra, que passou a ser pra mim estranha, pois estranho é ter tantos órgãos diferentes espremendo-se num mesmo espaço mas, com funções diferentes. E passei a sentir 'um incomodo angustiante em minhas estranhas..."!

"- É incorreto! - me diziam. E lembrei-me de um almoço de Natal onde toda a família com tios, primos e meu avô estavam sentados à volta das duas mesas que formavam uma. Começou a garoar e minha prima dizia: "- Tá garorando!". E então, antes da chuva passou a surgir um anuncio... Garorava antes de chover!

E papéis com palavras amontuadas me atraiam! E meu pai me apresentou a bula de seus tantos remédios. Me pedia para lê-las para certificar-se que se auto medicava corretamente. O remédio era para o estômago. Não conhecia ainda a importância do chapéuzinho em cima das vogais e lí a bula inteira errada dizendo 'estomágo'. Em momento algum me dei conta que me referia ao órgão digestivo, pois ainda não conhecia o nome e nem os órgãos internos. Aliás, nem sabia que dentro de nós haviam tantos! A bula marcou tanto que para eu não mais correr riscos, passei a dizer 'estrômago'!

"- Papai, acho que vou precisar do seu remédio, pois sinto uma estranheza no meu estrômago que vai descendo até minhas estranhas!"

Um dia, caminhávamos pelas ruas do bairro e nos deparamos com uma pedra enorme e quadrada. "-Que diferente!" - gritei. "- É um paralelepípedo!". Fiquei olhando a pedra procurando o que havia de paralelo nela e o que poderia ser o pípedo... Sabia que duas linhas retas uma ao lado da outra estavam paralelas... "- A pedra é duas paralelas que andam com duas pernas?".

Falar errado virou mania, e virou mania juntar duas palavras em uma. As borboletas eram minha paixão na infância! Eram tão bárbaras que tornaram-se 'barboletas'! A maionese era um nome tão diferente e sem sentido para mim, que 'tornou-se 'marionese'. O abacaxi que considero bonito, mas só de pensar faz debaixo da minha língua inundar de saliva à ponto de eu me abaixar de tanto incomodo passou a ser 'abaixaqui'! Com o tempo, minha mania passou a fazer todos a minha volta rir... E tornou-se comum eu trocar as palavras, com seus significados, por achar que os sons eram mais apropriados para arrancar sorrisos.

E algumas palavras ganharam minha total dedicação... Energúmeno me parecia uma pessoa com feições de jumento! Mentecapto, uma mente decaptada pela própria ignorância! Patético, alguém que despreza a própria humanidade! Paquiderme, um parente do energúmeno! Eu jamais fui ao dicionário buscar o significado de nenhuma delas, mas o som que fazem em minha boca quer dizer exatamente o que quero dizer. Adotei-as e sempre me foram melhores do que usar palavras chulas para ofender alguém.

O que foi muito 'gira', bacana, legal, foi descobrir que cada palavra pode querer dizer muita coisa porque tem muitos significados. E que muita gente encaixa esses significados nas frases que bem entender, de acordo com o que elas querem fazer as outras pessoas pensar, dando à elas novos significados. E que além de tudo isso, em cada estado de nosso vasto país, as mesmas coisas que conhecemos tem nomes diferentes, embora signifiquem a mesma coisa e possuírem sons de pronúncia diferentes!

Eu hoje, prefiro ouvir do que falar... Pois falamos as mesmas palavras, mas cada boca pronuncia do seu jeito.

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A obra As Palavras de Shimada Coelho foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não-Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

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