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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Mais um ano...



Olho pela janela e a chuva que cai me dá uma sensação de aconchego. Olho para este céu há trinta e nove anos e sempre parece que é a primeira vez. Passaram-se muitos anos, o céu é o mesmo mas abaixo dele muita coisa mudou. O que exatamente eu ainda espero surgir no céu eu não sei, mas jamais me cansei de olhar para ele. As nuvens me ensinaram muito... Por isso as fotografo: é a única vez que uma delas passará!

Meus olhos instintivamente procuram por algo... Meu coração espera por algo... O que é ainda não sei... E quando me convenço que não sei o que tanto procuro, olho para as 'caixinhas de fósforo' que cobrem os morros formando as bordas da imensa Bacia. Elas aumentaram ao longo dos anos e são mais coloridas. Posso apontar cada árvore que persiste aqui... Sei exatamente quais delas já estavam aqui antes de mim.

Ouço George Harrison enquanto comprimo meu nariz na vidraça... A chuva cai mais intensa e o vidro se embaça com minha respiração...A chuva sempre lava a Alma das terras do Capão. Daqui posso ver as duas janelas da casa de Márcia, minha amiga de infância. Amiga de verdade, desse tipo de amigo que não se encontra mais... Nascemos e crescemos aqui... Na Grande Bacia... Nosso berço esplêndido...

Meu berço pra vida inteira, meu ninho para minhas crias... Aqui será meu tumulo quando eu não mais existir... Saberão que eu vivi aqui quando ao longe enxergarem uma imensa árvore... Debaixo delas minhas cinzas serão guardadas para que daqui eu não saia jamais!

Há um circo novo no bairro... Vou visitá-lo só pra saber se usam animais nos espetáculos... O vento está violento e me lembro daquele ser tão alado quanto meus sonhos dizendo sentir falta de minha inquietude... Minha inquietude... Foi o adjetivo mais lindo e fiel a minha personalidade que já recebi! Minha inquietude me afasta de quem quero por perto...

Daqui olho tudo e me sinto nas altas torres que um dia escrevi... Me isolo das pessoas por opção e finjo não gostar de gente... Vivo mentindo assim... Não quero é me apegar a elas... Não quero é sentir piedade ou compaixão... Não quero demonstrar que as compreendo não importa o que façam... Não quero que saibam que eu acredito em tudo o que dizem...

A modernidade tecnologica poderia resolver meu problema: sites de relacionamento, emails... Eu continuo me isolando e me limitando... Não sei ser no mundo virtual o que não sou no real... Eu gosto mesmo das vozes, de ouvir e observar como as bocas e rostos se expressam... Não gosto e não quero falar... O que falo é muito de mim e embora muitos achem que eu sou submissa ou que de alguma forma eu me anulo, na verdade eu me privo, me poupo, me farto, eu me enriqueço... Sou aparentemente antisociável... Mas minhas atitudes demonstram o contrário quando preciso me doar a outro para me realizar...

Mas fico entediada com tamanha facilidade... As nuvens não me entediam nunca... Mas as conversas fúteis, as mensagens triviais, os temas medíocres me matam de tédio... Pareço então desinteressada, mas é tédio...

E o que amo, o que preservo, o que dou devido valor, eu sinto intensamente... Não discurso amor... Não rastejo simplóriamente devoção... Nos meus pequenos atos está lá todo meu universo de sentimentos eternos... Não desfio o rosário de elogios, só alimento admiração... Não faço propaganda de egos que precisam se inflar, trato as pessoas com o valor que elas possuem mesmo que ainda não saibam... Não me compadeço pela dor alheia pois aprendi que a dor e o sofrimento é opção... É sentimento... Não preciso cobrir com o melaço de adjetivos aquilo que me quebra o tédio... Essa é minha maneira de não subestimar as pessoas que se subestimam tanto!

Passaram-se trinta e nove anos e em algumas coisas mudei muito e em outras nada mudei... Minha pessoa é a fronteira entre a minha infância e minha juventude e pelo visto somente minha Alma será sempre anciã... Meus filhos crescem no mesmo Berço esplêndido que eu, me enchem de orgulho de mim e deles: são parte de mim...

Me olho neste momento do modo que somente eu mesma posso enxergar e me sinto feliz pela vida que tive e tenho... Me sinto feliz por ser quem sou e o modo como vivo... Uma em meio a tantos outros na imensa Bacia... Com a vida interessante embora nunca saia do lugar... Minha vida interessante, não pelo que sou ou pelo que faço, mas pelo que posso ver, ouvir e sentir....

Tenho tanto ainda pra contar...


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