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terça-feira, 27 de setembro de 2011

“O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação”

Eu estava prestes a desistir dessa labuta tão árdua que é escrever, embora muitos pensem que quem desenvolve tal tarefa seja um reles boêmio que vive no ócio. O extremo uso do cérebro vai consumindo glicose excessivamente perde-se a noção de tempo, perdem-se dias e noites junto com oportunidades de socialização que para muitos seriam valiosas.

Ser escritora era uma idéia fixa que surgiu na infância. Eu colecionava papéis usados de qualquer tipo, media com régua e recortava tudo no mesmo tamanho. Perturbava minha mãe que sempre estava debruçada na máquina de costura e pedia-lhe para que costurasse o centro daquelas folhas para ficarem unidas. Ali eu criava meus livros com ilustrações que cedo ou tarde ela encontrava jogados pela casa e jogava no lixo. Talvez daí venha meu sentimento de que tudo o que escrevo não tem proveito.

Conforme cresci eu passei a ler biografias de escritores. Suas obras são meros reflexos do que eles realmente são e buscava identificação não com um estilo literário, mas com um estilo de vida. De todos que li e que são estes tão conhecidos por quase todo mundo, encontrei também pontos similares. Justamente estes pontos me fizeram desistir de escrever ainda muito jovem.

Em todos os escritores que li na época percebi que eram pessoas viajadas, intelectuais letrados e formadas em boas universidades. Imaginava se alguns deles não possuíssem estes requisitos teriam seus nomes gravados na História e recebendo tanto reconhecimento que os tornaram imortais.

Eu nunca gostei de viajar, tenho uma dificuldade enorme em ler um livro inteiro, não consigo aprender tudo o que querem me ensinar numa escola, pois só aprendo de verdade o que me desperta interesse, tentei desde criança a aprender latim e até hoje não consegui, não me interesso em falar outra língua que não seja a minha e considero que nem tudo o que se aprende na escola tem realmente alguma coisa a ver com a profissão que se decide seguir. Mesmo me vendo incapaz de me tornar escritora, continuava a escrever porque era mania: tudo deveria ser dito, tudo deveria ser registrado, nenhum pensamento ou emoção poderiam me escapar.

Certa vez escrevi quadras que nem reconhecia como poema. Alguém disse: "- Não conhecia esse poema de Pessoa!". Embora o intelectual à minha frente não pudesse crer tentei convencê-lo de que aquele poema era meu e que eu não sabia quem era esse tal Pessoa. Fui em busca deste indivíduo que era tão famoso que me frustrava diante das pessoas que me achavam incapaz de escrever um poema decente.

Eu me apaixonei por Fernando na primeira vez que o conheci. Não, não queria saber de suas obras tão procuradas, queria saber de sua vida. E quanta coisa nós tínhamos em comum! Apesar de ser algo hereditário, tenho pavor dos trovões! Odeio ser fotografada e pior ainda que minha foto seja exibida. Amo a solidão e a reclusão, amo viver imersa nos devaneios de minha imaginação fértil! Os temas de minha vida rodam o ocultismo e o sobrenatural, a realidade não possui pra mim nenhum fascínio, mas aprecio rasgar esta tela que a torna tão agradável para a maioria e desbravá-la.

Quem sabe eu poderia ser escritora assim como Pessoa? Não podia... Os únicos livros que tinha em casa eram os da escola, e como eles me entediavam por demais, lia o dicionário e a lista telefônica da linha telefônica que não tínhamos. Eu sempre encarei a realidade e sabia que jamais poderia alcançar um terço da formação acadêmica de Pessoa, pois fui criada para ser 'do lar' e esposa prendada. Se eu quisesse me aventurar nos corredores e salas de uma universidade, teria que me rebelar além do que começava a mostrar as 'unhas e dentes', me emancipar, arrumar um emprego e buscar minha intelectualidade comprovada num pedaço de papel. Só de pensar na batalha que teria que travar desistia: já tinha que lutar todo santo dia para que minha própria família me aceitasse como sou!

Os anos passaram... Limitei-me a escrever em meus diários... Muitas vezes pensei que era uma coleção de asneiras sem sentido que só ocupavam espaço e queimei muitos... Sempre ganhava uma agenda nova que acabava se transformando em diário novamente e eu continuava escrever, pois é mania. Os anos passaram ainda mais e cada vez ficava distante aquela idéia absurda de ser escritora. A idéia ressuscitava na mente e no coração, mas logo a ignorava: haviam passado tempo demais para começar.

A minha vida foi tomando seu curso... Escrever passou a ser apenas um modo de compreender o mundo onde não conseguia me encaixar. Mas em uma época fui morar no Japão para trabalhar. Havia me casado com um apaixonado que não parou para pensar que nós dois éramos sem eira nem beira: ele ainda cursava a faculdade e eu ganhava bem trabalhando em uma locadora de vídeos. Quando o segundo filho veio, tudo o que deveria ser feito antes do casamento precisava ser conquistado em pouco espaço de tempo. Foi a primeira vez que sai do país e vi como o mundo era grande e tão diversificado. O dinheiro que ganharíamos lá mudaria muito nossa vida, mas a experiência fora do país seria algo muito mais recompensador.

E foi lá que certa vez, sentada na escadaria do prédio, que o primeiro livro veio na mente, feito o vento forte - reflexo de Tufão - que vinha ao meu encontro fazendo meus cabelos esvoaçarem e as páginas do livro que estava lendo correrem de capa a capa. Eu já havia escrito um poema que enviei para um jornal que circulava entre os brasileiros e acabaram publicando. Foi algo despropositado, mas fiquei feliz em ver minhas linhas no jornal. Escrever um livro já era o auge da audácia pois, escrever era mania e a idéia já tinha morrido.

Mesmo assim, o começo, meio e fim do livro foram registrados em um caderno. E até hoje não consegui terminá-lo porque venho de família pobre, não sou bem sucedida academicamente, aliás, uma pessoa que não é formada não pode ter suas palavras reconhecidas. Entre os cuidados com os filhos, os rabiscos nas agendas e as tarefas do lar eu conseguia sentar e tentar desenvolver a história que considerava surpreendente e que deveria ser acabada. Mas pensamentos negativos povoavam minha mente: 'se você terminar com que dinheiro vai publicar?', 'e para terminar é preciso horas escrevendo e você não tem esse tempo', é preciso muita pesquisa já que você é uma semi-analfabeta'... Em um e outro trecho do livro há um espaço de anos! Esses pensamentos sempre me faziam parar, fechar o caderno e colocá-lo no fundo da gaveta.

Mas um dia, folheando um livro escolar de Literatura conheci José Saramago! "O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever". Eu também havia conhecido um sábio que nem sabia escrever! "O talento ou acaso não escolhem, para manifestar-se, nem dias nem lugares."

Cada vez que conhecia um pouco mais de Saramago, algo me inundava:

"Não há formação para se ser escritor. Passe por onde passe, o escritor é sempre um autodidata. Quando se senta pela primeira vez e escreve as primeiras palavras, não lhe serve de muito ter andado na universidade, ou na outra, a que chamamos universidade da vida. Serve, mas não é por isso que escreve. (...) O que acontece é que talvez nos achemos demasiado importantes, demasiado interessantes."

Quando li isto, todos os pensamentos negativos foram assassinados! Sim, se eu quisesse poderia me tornar uma escritora! E foi o que fiz: a cada dia, várias vezes ao dia, eu escrevo! Atrevi-me e passei a publicar meus textos na internet. E por incrível que pareça, muita gente começou a ler e gostar, me motivando a continuar.

Logo depois conheci Sylvia Plath e percebi que mesmo sendo mãe de família poderia arrumar um meio de continuar escrevendo e continuar viva!

Já sou reconhecida poetisa e tive alguns poemas publicados em um jornal e uma revista eletrônica de Minas. Continuo na pretensa idéia fixa de me tornar escritora, mas isto só será possível quando eu publicar ao menos um livro.

Continuo 'do lar', fazendo artesanato vez ou outra para ajudar na renda. Até chocolate aprendi fazer nos momentos que a situação financeira apertou. Minha vida melhorou bastante desde a primeira vez que a idéia absurda veio na minha mente, mesmo assim, o bem estar dos filhos sempre está em primeiro lugar. Publicar um livro é caro, mas não é só isso: não basta ter imaginação fértil e escrever qualquer coisa que vem à cabeça para criar um livro!

Escrever exige embasamento, exige boa argumentação, exige inspiração e um realismo expresso com intensidade em palavras. Caso contrário, será apenas mais um livro que alguém se arrepende de comprar ou que precisa ser doado pelo autor, pois ninguém quer!

Não se escreve uma boa história de uma hora pra outra. Uma simples poesia pode demorar um dia inteiro para ser escrita, e uns dois dias para poder ser concebida! O momento de inspiração é aquele em que o autor mergulha na eternidade e por isso, nem vê o tempo passar. Sua vida é deixada de lado para poder criar as fantasias onde os leitores podem se refugiar!

Escrever é criar e recriar: você perde com isso várias horas de seu dia e todas as suas tarefas e compromissos são deixados de lado. Escrever é deslocar-se no tempo/espaço, viajar no tempo e mergulhar na história do mundo!

Os imortais escritores que conhecemos criaram suas grandes obras porque a maioria deles podia se dar ao privilégio de fechar-se em um quarto, perdesse no tempo, desmarcar compromissos e deixar as tarefas para outras pessoas. O dinheiro move o mundo e eles tinham o suficiente para exercer com liberdade o ofício.

E como é o perfil do escritor atual? Com a internet muita gente escreve e se considera escritor. Já vi muito livro publicado com o único intuito de dar ao seu autor o título de escritor. Quem de fato é escritor?

Eu tento ser uma! Mas não tenho dinheiro disponível para pagar uma publicação independente. A vida de quem não tem um bom nível social é corrida, rica em batalhas constantes e árduas, não há tempo e dificilmente o sistema permite que se viva uma vida de isolamento - necessário para criar. Conhecer outros lugares favorece em muito a criação, bem mais que acessar sites e ler outros livros, correndo-se o risco de cometer plágio!

Já fiquei enclausurada, mergulhada na minha inspiração por três anos! Durante este período escrevi muito, mas o resto de minha vida ficou estacionado. Sair de casa também gasta um tempo precioso: é preciso dar conta dos compromissos, dos filhos e dos afazeres em tempo recorde para sobrar tempo para escrever!

Embora longo - e para alguns, cansativo - este texto, a intenção dele é contribuir para que nossos governantes possam dar o devido valor e apoio aos poetas e escritores. Desejar o reconhecimento como escritor não é um recurso para alimentar o Ego, nem tão pouco galgar fama e reconhecimento, muito menos tornar-se rico. Quero ser escritora por ter vocação de registrar a história de muitas pessoas que possuem o mesmo valor que qualquer outra e merecem destaque na História. Quero ser escritora porque quando conto uma história eu torno pública a existência de alguém que muita gente não sabe que existe. Quero ser escritora porque ao contar uma história eu coloco nas entrelinhas uma cultura, uma tradição, uma crença, um anseio, uma necessidade, um povo!

Espero realmente - peço em nome de todos os novos escritores - que os créditos e o apoio a este ramo da Arte sejam discutidos e analisados com todo o carinho merecido. Um escritor não é um mero vagabundo que vive de elogios! É um Levita que canta a Vida, um arauto que anuncia possibilidades e um guardião que está de posse do melhor do ser humano e que merece ser guardado!

"Tenho o dever de me fechar em casa no meu espírito e trabalhar quanto possa e em tudo quanto possa para o progresso da civilização e o alargamento da consciência da humanidade" - Fernando Pessoa

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